1 Oi & 3 Entrevistas
Oi pessoal!
Estava de passagem para documentar oficialmente o fim das férias e responder todos os comentários — que foram muito acima da média e provaram que escolhi o post certo pra encerrar 2009 e entrar 2010 com o pé direito — aproveito e deixo a indicação de três entrevistas inspiradoras para Aprendizes de Escritores.
A primeira, é do poeta, romancista e professor Nelson de Oliveira (que já apareceu no Aprendiz aqui, aqui e aqui) lá no blog O Bule. A magia do Nelson dispensa comentários. Como a entrevista é meio longa, destaco abaixo os três pontos que mais me chamaram a atenção:
MAURO SIQUEIRA: Literatura é emprego?
NELSON: Primeiro é paixão. Destino. Maldição. Se você tiver talento e sorte, sua literatura poderá ajudar a pagar algumas contas. Se você tiver talento e mais sorte ainda, ela poderá proporcionar relativo conforto material. Tudo indica que Rubem Fonseca e José Saramago não estão passando fome. Literatura depende de talento, determinação e sorte, muita sorte. Apenas talento e determinação são insuficientes. Mas não pense que estou sendo supersticioso, quando falo em sorte. Estou sendo bastante racional. Os matemáticos e os físicos de hoje já sabem que o acaso — o aleatório — determina profundamente nossa vida, nossos projetos. O sucesso e o fracasso estão sujeitos às leis da probabilidade, é o que afirma O andar do bêbado, best-seller do físico Leonard Mlodinow. A fim de aumentar suas chances de sucesso, a grande maioria dos escritores é obrigada a ter um emprego, para se manter e manter seu sonho. Pode ser um emprego numa área próxima, como o jornalismo ou o magistério. Eu, por exemplo, dou aula em universidades, faço crítica literária nos jornais e também trabalho como consultor de uma editora. Tudo isso me dá a estabilidade necessária pra que eu possa seguir em frente com minha carreira literária.
ROGERS SILVA: Você é o organizador do Projeto Portal, cuja proposta é “combinar, misturar e talvez interpolinizar a FC e o mainstream” (palavras de Roberto de Sousa Causo). Esse diálogo é de fato possível? A dificuldade maior está em convencer o mainstream, com seus preconceitos, da riqueza desse diálogo? Ou, por outro lado, em encontrar na ficção científica a qualidade e a profundidade literárias exigidas pelo mainstream? Existe o Guimarães Rosa da FC?
NELSON: A unanimidade nacional, em outras palavras, o Machado ou o Rosa da FC brasileira ainda não apareceu. Ainda… Na adolescência, no interior de São Paulo, eu era apaixonado pela prosa de Ray Bradbury e Isaac Asimov. A ficção científica era meu gênero literário predileto. Lia com prazer tudo o que encontrava, incluindo os divulgadores científicos mais carismáticos, como Carl Sagan e o próprio Asimov. Depois, já na capital e na faculdade, abandonei essa subliteratura e abracei a grande literatura legitimada pelos círculos acadêmicos. Grande erro. Em vez de somar as duas coisas, fui tolo e troquei uma pela outra. Levei vinte anos para perceber que os melhores livros de ficção científica nada têm que os desabone. Então, já quarentão, voltei correndo para eles, sem abrir mão dos livros canonizados pela teoria literária. O Projeto Portal é parte desse reencontro com um gênero tão rico de possibilidades narrativas. Como autor da corrente principal de nossa literatura, concordo totalmente com Luiz Bras, quando ele diz, em artigo publicado no Rascunho (Convite ao mainstream), que precisamos renovar com urgência nossa palheta temática. A época atual está às voltas com a clonagem, a nanomedicina, a realidade virtual, a inteligência artificial, as neuropróteses, o ciberespaço, e nada disso está aparecendo em nossa literatura. Que desperdício de assunto. O diálogo do mainstream com a ficção científica será proveitoso também para esta, sempre acusada de ser artisticamente superficial e ingênua.
RODRIGO NOVAES DE ALMEIDA: Por que a ficção científica?
NELSON: Esse gênero oferece bastante matéria-prima, e não está distante do gosto do brasileiro. Ele faz fronteira, de um lado, com o fantástico e, do outro, com o realismo mágico, muito apreciados pelo leitor culto tupiniquim. E as dezenas de ramos que saem do galho da ficção científica oferecem um leque de caminhos muito diferentes, um para cada paladar. Está tudo pronto para o casamento fecundo do mainstream com a FC. Falta apenas que a elite literária reveja seus preconceitos e perceba que qualquer possibilidade de renovação da rosa passa pelos gêneros ditos inferiores. O Projeto Portal e a coletânea Futuro presente propõem isso. É certo que vários autores da corrente principal de nossa literatura já estão flertando com a space opera, o ciberpunk, o pós-humano ou o pós-apocalipse. Esses são ramos muito apreciados da ficção científica. Porém alguns cuidados precisam ser tomados, do contrário as conseqüências podem ser desastrosas. Recomendo a leitura do artigo Cinco erros, publicado no Rascunho. Luiz Bras pediu a Roberto de Sousa Causo, Ataíde Tartari e Fábio Fernandes — três dos nossos melhores autores de ficção científica — que apontassem os cinco pecados mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever FC.
A segunda é a entrevista que o escritor Luis Fernando Veríssimo cedeu à revista Época e a terceira é um Roda Viva de 1989 — um bate-papo sobre crônica, romance, política, música e muitas outras coisas com ninguém mais, ninguém menos que Fernando Sabino. Imperdível!
Feliz 2010!