8 Dicas para Romancistas Estreantes

Minha admiração pelo Bráulio Tavares fratura limites. Escritor, poeta, compositor, roteirista e crítico, é uma enciclopédia viva sobre literatura fantástica nacional. Ouvir esse cara falar da produção sci-fi de Guimarães Rosa durante a Fantasticon foi transcendental. Hoje ele postou oito dicas que um escritor gringo, o Mark Savras, elaborou depois de ser jurado de um concurso para romancistas estreantes. Saca só.

  1. Tentar incluir coisas demais. O autor quer, no seu primeiro livro, abordar e resolver todos os problemas e fenômenos sociais do mundo. Conselho: Tudo bem em ser ambicioso, mas não queira ser um Atlas logo na primeira tentativa.
  2. Não incluir muitas coisas. Estamos vivendo a apoteose da microliteratura, focalizada em detalhes mínimos e quase sem eventos a relatar. Tem gente demais estreando com romances-de-uma-idéia-só.
  3. Achar que basta uma voz narrativa excêntrica para segurar o leitor de um romance. Vozes assim são bem vindas, mas muitas vezes toda a energia do autor é gasta em tentar manter essa voz, esquecendo de produzir outras coisas interessantes (ou então confiando que a voz irá distrair o leitor dessas ausências).
  4. São muito coloquiais. Livros que a todo instante fazem referências a minúcias do cotidiano, coisas que muito em breve ficarão datadas. Um romance não é um bate-papo de mesa de bar.
  5. São formais em excesso. O defeito oposto: muitos livros parecem ter sido escritos em outra época, de tão cintura-dura, formais, anacrônicos. Ou, o que é pior, parecem estar obedecendo religiosamente, item por item, algum Manual de Como Escrever Romances.
  6. Começam com força total mas vão definhando ao longo do trajeto. São como maratonistas que disparam na frente, ébrios de triunfo, apenas para serem ultrapassados, perto do fim da prova, por competidores que souberam dosar melhor suas energias. Muitos livros desabam de vez no final, ou então vão se desorientando e se perdendo como se o autor não soubesse mais o que fazer com sua história.
  7. São demasiado reconhecíveis. A gente abre dez livros e reencontra ali os mesmos relacionamentos, as mesmas situações vividas pelas mesmas pessoas das mesmas classes sociais.
  8. Eles não justificam a própria existência. Toni Morrison dizia que escrevia para preencher um espaço vazio nas estantes. Há alguns tipos de livros que deveriam estar sendo escritos, mas não sabemos quais são até o momento em que lemos um deles. Infelizmente (diz Mark Sarvas) muitos escritores escrevem por escrever, escrevem para ter um livro publicado, mas chega a parecer que o texto em si, aquilo que estão escrevendo, é uma peça menor nesse processo.

De todas as críticas, a mais pesada é a última. Mestre Marcelino Freire cansou de repetir pra nós “diga logo a que veio! Tire já essa gravata e paletó e diga lá, o que você deseja com isso que está escrevendo?” Pra complementar, há a célebre frase do mestre Nelson de Oliveira — já doada, por força de repetição, ao meu editor e amigo Claudio Brites “lemos o que desejamos, escrevemos o que é possível”.

Ou seja, atender a última exigência do Mr. Savras é uma questão de poder, caro Aprendiz. Um tipo de poder literário que só a vida, nas suas palpitações mais ou menos vibrantes é capaz de produzir. É uma questão de conhecer o segredo para ser publicado, de vasculhar as profundezas de si mesmo — seja por exaustão, alucinação ou devoção — em busca daquilo que você — e somente você — é capaz de dizer ao mundo.

Todas as histórias já foram contadas? É possível escolher qual e como contaremos? É dura a pena de descobrir que você cunha sua história em si. Antes de se conhecer como romancista estreante, é importante se reconhecer como ser humano.

Ou só como ser mesmo.

Ser é bom começo.

6 comentários sobre “8 Dicas para Romancistas Estreantes

  1. Nossa cara, essas são AS DICAS.
    Sabe, faz pouco tempo que conheci teu blog e gosto muito dos teus posts, são uma bela luz pra iniciantes como eu nesse caminho literário.

    Abraço

  2. Olá Bruno ! Achei seu blog sem querer, mas que bom tê-lo encontrado. Iniciativa bacana, e postagens que realmente podem ajudar a escritores iniciantes. Bem, eu escrevo há muitos anos, porém nunca publiquei nada nem tampouco divulgo o que escrevo. Não me considero uma escritora, porém escrever para mim é como respirar. Necessito… Gosto muito de escritores mais clássicos. Tenho verdadeira paixão por Guimarães Rosa, acho Machado um gênio e me arrebata a criatividade de Garcia |Marquez. Porém, gostaria de ler alguns autores brasileiros contemporâneos. Será que você me indicarial alguns???
    tomara que você me leia e me responda…
    abraço, parabéns novamente e vou continuar te seguindo!

  3. Como assim, dicas? Não tem dica nenhuma aí. Só um monte de defeitos a se evitar. São dicas? Não. Me digam como evitar esse problemas, então. Posso enumerar muitos outros problemas mais, mas dizer a um gordo, careca, baixinho e cheio de espinhas que ele é tudo isso não dá nenhuma pista de como se evitar esses defeitos. Quero ver alguém dizer para esse cara que deve parar de comer besteiras e fazer pilates, usar sapatos de salto alto e lavar a cara com adstringente (sei lá o que…). Dicas são coisas desse tipo. Sabem como se melhora a escrita, caros coleguinhas? É escrevendo… Escrevendo e lendo bastante para tentar absorver o que os outros fazem bem. Deem seus textos para um pessoa mais experiente para que ele dê sua opinião, elogie o que precisa ser elogia e meta o pau no que está ruim. Tentem copiar as coisas boas que você lê, tente fazer um texto similar até adquirir voz própria; três ou quatro autores que você gosta e que tenham estilos diversos podem te dar duas ou três características para sua própria narrativa; isso sim é dica. Leiam, escrevam e parem de visitar blog a procura de dicas. “Não há almoço grátis”. Se querem o seu, trabalhem por ele.

  4. Olá aprendiz de escritor,

    bom, resolvi movimentar um blog que tinha criado em 2007 mas não escrevia, hoje deixo alguns rabiscos meus, mais gostaria de sentir que o que estou escrevendo tenha a ver com contos ou crônicas e sei que o tenho não chega nem perto disso, gostaria que lesse e comentasse o que escrevi.

    Ah, escrevo poemas também! Visite meu blog. Abraços!

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