Andarilho Voador
Como de costume, pousei no parapeito da varanda que fica no sobrado da Gabriel dos Santos, oitenta e oito. Como eu gosto dessa casinha; bem iluminada, colorida e feliz. Ela tem cara mesmo de oitenta e oito, com dois infinitos, um dentro do outro. E não podia estar num lugar diferente, afinal o oitenta e oito da Gabriel dos Santos é uma escola.
Como em qualquer escola, de tempos em tempos durante os dias, ela se enche de pessoas que querem aprender coisas. Gosto de apreciar a palidez das cores na alma dos alunos que entram pelo portão branco para compará-las com a miríade em que se transformam quando, tarde da noite, eles vão embora para os seus ninhos.
Até algumas luas atrás, só entrava gente de alma cinza, opaca e até meio borrada. Apesar disso, sempre reparei que, depois de algum tempo de curso, os alunos costumavam estar mais brilhantes quando saiam de lá. Alguns ficavam até meio coloridos.
De uns tempos pra cá começou a entrar lá uma gente colorida demais! Esse pessoal sai ainda mais radiante do que quando entra e as cores até se misturam! Uma beleza de se ver! Aliás, hoje cheguei atrasado. O vento já esfriou e isso significa que está quase na hora deles saírem.
Dificilmente eu me atraso, mas não sei porque ainda cismo em pegar a corrente de ar quente que passa sobre o rio podre quando isso acontece; ela nunca me serve de nada e está sempre cheia de insetos, não importa quão alto eu suba. Sem contar o cheiro que me obrigo a aguentar. Simplesmente terrível. Pra piorar, hoje nem ela me fez conseguir chegar a tempo de vê-los entrarem na escola, o que é uma pena. Mesmo assim, sempre fico até a saída. Ela é a parte mais bonita mesmo.
O mais velho deles está sempre amarelo ouro; vivaz e radiante. Vi poucas almas tão brilhantes quanto a dele. Os demais variam tanto que chegam a ofuscar de vez em quando. Principalmente quando os professores entram bem coloridos. Aliás, isso é algo que percebi já faz algum tempo: quanto mais colorida a alma do professor que chega, mais coloridas são as almas dos alunos que saem.
Opa! Vento sul chegando! Já está quase na hora!
Espero.
Espero.
Espero…
Nada deles aparecerem. Será que hoje não tem aula? Mas está tudo aceso e já passou da hora! Espero mais um pouco…
Nada.
Não me aguento: vou até os fundos e pouso no bebedouro de porcelana — adoro pousar na porcelana, ela esfria a sola das minhas patas e faz cócegas de um jeito diferente — de lá, consigo ver um bom pedaço da sala de aula deles.
Qual não é a minha surpresa ao encontrar um dos alunos adiante da sala, ocupando o lugar do professor! E é aquele de alma púrpura! Hoje os nuances de laranja nele estão ainda mais brilhantes do que de costume, uma bela combinação. Ele está gesticulando muito e não parece estar apenas apresentando um trabalho…
Que estranho…
Será que o aluno virou professor? Isso seria o máximo! Preciso ter certeza disso! Preciso descobrir! Obviamente, o melhor jeito de fazer isso seria ouvindo um pouco da voz de algum deles, afinal as vozes nunca mentem e eu sou muito bom com vozes! Talvez eu até conseguisse conversar com eles! Nossa! Isso sim seria fantástico! Aí eu saberia tudo! Mas como vou fazer isso? Como eu me aproximaria? Como convencê-los a falar comigo? E mesmo que conseguisse, sobre o que eu falaria? Futebol? Política? Religião?
O quê? Já acabou a aula? Não! Eu ainda preciso bolar um plano para falar com vocês! Calma, calma! Pense, pense rápido… Já sei! Eles costumam parar diante do portão para conversar um pouco, talvez ali eu possa usar o velho truque do desconhecido! Sempre funciona!
Dito e feito.
A maioria vai embora de cara, mas, como sempre, ficam uma meia dúzia deles batendo papo diante do portão branco. Agora me resta achar uma viva alma que me sirva de fetiche, e precisa ser rápido! Certo, procure, procure…
Lá na esquina! Vem vindo um cara de aura multicolorida e rodopiante! Hum… Pelas espirais nele, o coitado deve ter bebido tanto que nem vai se lembrar caso eu assuma o controle por alguns instantes.
Perfeito! É a minha chance!
Gostei muito.
Estou curiosa pra saber o “que” é o andarilho.
Mais um texto seu pra coleção dos que esperam a continuação aqui!!!!! rs.
Vc disse que tinha um texto …alguma coisa com dragão. Lembra?
Quando vou ver esse?
Parabens pelo texto, escritor.
No começo achei que fosse um pombo… depois, parece um fantásma ou um anjo…
Bacana, Bruninho! Gostei.
Ahaha… muito bom.
Eu também estava lá e sei a continuação da história.
Mas é segredo.
Pera ái Bruno, preciso falar antes a Renato….
Pô Renato, assim vc deixa o povo curioso….a continuação da história, seja daquela, seja desta, cabe ao vento quente que passa, e nos leva flutuando pela vida à fora. Quem estiver posicionado acompanha, quem não, precisa ao menos bater asas e buscar um lugar na viagem.
Bruno…vc e o genial interagem com fantasia pontuada e cardeal….pego carona neste vento, e com o sorriso colorido pela aula do aluno-professor, aceito o desafio lançado. Aguarde novidades.
Sady
Olá Sue,
Esse ainda é confidencial. Aguarde notícias.
Eu sei qual é a tática do Renato, Sady. Como diria Didi Mocó: Aguarde e confie.
Curiosidade Mata! Vocês estão preparados para a acusação de homicídio? Que viagem essa história! A gente vai lendo, lendo, ficando preso e, quando vê, acompanhou o andarilho sem saber quem é, mas imaginando, só imaginando e sorrindo. Agora, é para contar: o andarilho é um pássaro? Um espírito? Um ébrio? Um mistério que você (e seus cúmplices) não vão nos entregar? Homicídio doloso, então! Abraços.
Olha… Gostei mto velho!!! Parece algo transcedente da realidade, tomado no depoimento de um anjo querendo fazer parte daquele momento… Eu acho que vc deve ter se inspirado em algum momento de muita felicidade escolar, num foi não?!… Mas enfim, sendo ou não realidade, parabéns, vc conseguiu passar EXATAMENTE aquilo que queria: Mistério e Serenidade! xD
HÓ, HÓ, HÓ, esse andarilho andou voando muto alto e com olhos de águia observando muito além do simplesmente visível. Uma alma mística? Parabéns
Isso mesmo! É a sua chance.
Mostre logo o resto da história, estou curiosa.
Você vai fazer isso sempre?
Gosto muito desse tipo de viagem… mais real. Que bela sacada essa do desafio, Brunão.
Até a noite.
Você viajou mesmo no episódio, heim, Brunão.
Agora, aguardem… Depois da livre criação do Sady e do Renato, muita coisa virá por aí… Tan tan tan tan…
Olá Olga,
Entregar um segredo desses? Nem sob tortura! Muita pílula vermelha na sua vida!
Fala primão!
Cara, me perdoa, vou dar aquela rasgada agora: é difícil ter uma aula com esse pessoal da qual eu não saia meio extasiado. Sério, o curso é massa. Vc devia experimentar.
Olá meu Guru Espiritual!
E me diga, qual delas (das almas) que não o é?
Olá Minha Morena!
Fazer o quê? Deixá-los curiosos? Sim! Prometo!
Olá Petê!
Aos desavisados, esse texto é a semente de um desafio literário que eu lancei aos meus colegas de classe. E sua vez está se aproximando, Petê.
Aguarde!
Lauríssima,
E desde quando podemos deixar que oportunidades literárias vermelho carne (^^, curtiu petê?) como aquelas nos escapem?! Eu não perderia! Aliás, tomei a liberdade de incluir os links para os textos do do Sady e do Renato direto no seu comentário, já que eles ainda não estavam por aqui.
Bruno, adorei seu texto. Amei o passarinho. Pelo menos, para mim, é passarinho.
Olá,
Esse andarilho voou longe. Quem quiser ver os frutos da brincadeira a que ele deu início pode seguir a trilha dele em:
Infelizmente, o conto que finalizou o ciclo Sonho Colorido, da Nanete Neves não foi divulgado no blog da autora, mas pode ser baixado e lido diretamente pela lista de discussão do grupo.
Todos esses autores são alunos do Curso Pós-Graduação e, Formação de Escritores da ESDC. Você encontra mais informações sobre o curso clicando aqui ou fuçando na nossa lista de discussão por e-mail.
Confira também o mapa conceitual do exercício:
Clique fora dos balões para arrastá-lo com o mouse
AAAAHHHH!!!
As páginas não estão abrindo nãããão! Assim não consigo acompanhar o desafio. E vc sabe como eu adoooro um desafio, mesmo q seja como expectadora. Queria saber dos outros contos.
Ah! O Sr. Google me contou q a Gabriel dos Santos 88 é exatamente a sua escola, vi a fachada da casa amarela de vcs e o portão branco… É divertido comparar a imaginacão da gente com a realidade.
Sobre o texto, acho q nem preciso comentar mto neh? Vc conseguiu mais de 10 curiosos afoitos… Público fiel! Mto bem!
Ah! Li sobre do q se trata o desafio. Mto legal. Gosto do conceito “mais do mesmo”, onde vc tem um objeto ou objetivo fixo, mas cada um com detalhes ou perpectivas diferentes. Ou seja, uma coleção (como os seus monstrinhos, meus baús, as espadas do palada… haha).
E qdo uma coleção inclui personalidades, pontos de vistas e criações diferentes… Adoro mais ainda.
Então faz favor de me dizer pq diabos eu nao consigo abrir e ler os outros contos, pq eu to morrendo pra saber a visão de cada um sobre um bizarro vereador q apareceu na escola de vcs (aliás… Isso me faz pensar q poderia ter mais gente no dia q vimos o “diabo” no metrô pra termos vááárias versões criativas).
Mais uma coisa… (juro q calo a boca depois dessa).
Qual era o prêmio?
Nota de rodapé para os desavisados: a Srta. Analice mora na Itália! Isso mesmo, na Itália! Sim, eu tenho leitores internacionais!
Os “meus monstrinhos”?!
Que monstrinhos???
Me diz quais são os links que você não está conseguindo abrir, no mapa conceitual ou no meu comentário? Pq são os mesmos links.
No caso, cada desafiador elaborava seu próprio prêmio. O meu (para o Renato, Nanete e Sady), foi 2 horas de aulas particulares para darmos um “Pimp my Blog” nos blogs deles. Eles ainda não reclamaram seus prêmios, mas assim que o fizerem, eu mostro o “depois” (nos links aí dá pra ver como estão agora).
Os links do seu comentário para os outros contos é q não abrem. Todos dão erro 404.
E eu tô falando dos bonecos/monstros q vc juntava (aos poucos, pq eram caros). Como aqueles q a Tuska te deu. Vc não coleciona mais?
Links corrigidos! Faltou o “http://” antes deles! Percalço técnico! Obrigado.
E sobre os bonecos, agora sim eu entendi do que vc estava falando, das minhas action figures (sim, é esse o nome afrescalhado da coisa). Eu nunca colecionei não, mas eu gosto MUITO delas. Coleção por coleção, posso dizer que coleciono livros e gibis (principalmente os do Conan).