Andrei (v 1.3)
— Não dá pra rezar mais rápido? — apressou Andrei, gritando.
Depois cerrou os olhos, emparelhou as pistolas e disparou ambas de uma só vez. Desenhou duas linhas precisas no meio da fumaça dos tiros e da névoa da noite. Atingiu certeira e ferozmente o grupo de criaturas mais próximas que cambaleavam na sua direção. Antes que ar se enchesse de pólvora e eco, os primeiros alvos foram projetados sobre os demais com grandes pedaços de carne arrancados do corpo. Lentos e desajeitados, insistiam em se reerguer incansáveis, mesmo depois de serem derrubados em pedaços contra o chão.
Andrei correu os olhos em volta e sentiu o coração disparar: numa lentidão mórbida e irrefreável, uma turba de zumbis já formava uma ciranda macabra ao redor. Todos deformados pela fome insaciável e pela maldição que pairava nesse lugar. O atirador franziu o cenho e voltou a se proteger atrás da carroça tombada que usava como trincheira, alertando:
— Frei Silas! Precisamos de qualquer bênção divina que o senhor possa conseguir agora!
Além do atirador, outras duas pessoas se escondiam no abrigo improvisado: um garotinho ruivo e sardento — descalço, sujo de fuligem e debaixo de uma boina bem maior que a própria cabeça — e um velho senhor grisalho, usando uma túnica surrada e sandálias de amarrar. O garoto se mantinha ocupado, terminando de recarregar com presteza outro par de pistolas. O velho estava de cabeça baixa, se apoiando no longo cajado e num dos joelhos contra o chão.
Concentrado, murmurava uma prece antiga e pressionava contra os lábios um amuleto preso num colar de contas.
Ajudando o garoto a preparar um novo disparo, Andrei olhava ansioso para o sacerdote, esperando uma notícia qualquer. Entre um verso e outro da oração, sem erguer o rosto e mantendo a concentração, veio uma justificativa serena, sussurrada num tom grave e rouco:
— Calma meu caro, não é assim que as coisas funcionam lá em cima…
Andrei bufou preocupado e espiou pela beirada do abrigo. Mais e mais monstros se desenterravam pesadamente dos escombros do vilarejo adiante. Brotavam das ruínas num ritmo que parecia não ter fim; a procissão de cadáveres se arrastava emitindo lamentos de uma aparente indiferença sonolenta, mas lutando arduamente para atravessar os destroços na direção deles. A proximidade constante e crescente dos gemidos despertava angústia, indicando que o cerco final era eminente.
— Suas pistolas, senhor — chamou o assistente apressado. Andrei estendeu as mãos adiante, com as palmas calejadas pra cima, e Gino encaixou as armas já prontas nos dedos de seu mestre.
Quase num reflexo, Andrei agradeceu ao menino e se encostou na carroça, preparado para levantar. Fez uma prece curta no seu idioma natal, pedindo que os estilhaços dos disparos não atingissem o garoto, respirou fundo e se levantou. Escorou o peito na carroça, esticou os dois braços à frente e os zumbis desalmados continuaram temerários, caminhando na direção do abrigo e ignorando completamente a ameaça evidente. Andrei esperou os cadáveres se enfileirarem na alça de mira das pistolas e sentiu o ódio queimando dentro de si. Cerrou os olhos de novo e disparou duas vezes, uma de cada vez:
— Uma pela Mirna… — murmurou — Outra pelo meu filho que nasceria…
Acertou em cheio; peito de um, cabeça de outro. Pedaços de carne pútrida saltaram dos buracos abertos nos cadáveres ambulantes. Grandes nacos de pele, músculos e lascas ósseas ficaram dependurados. Andrei sentiu o coração vibrar de vingança dentro do peito e mal pode conter um palavrão sussurrado.
Quando voltou a se recostar dentro do abrigo, tinha os olhos marejados. Esfregou-os com as costas das mãos, esticando borrões de cinza pelo rosto. Sentou-se nos calcanhares e esticou os braços sobre os joelhos dobrados, entregando as pistolas descarregadas ao assistente. Gino as apanhou com presteza e ficou brevemente paralisado ao notar aquela expressão de fúria contida e desalento em Andrei.
Naquele instante, o menino não soube se os borrões foram fruto do suor que incomodara a mira de seu impetuoso mestre ou se houveram mesmo lágrimas no meio de toda a coragem, rebeldia e impulsividade do seu mestre.
De olhos arregalados, só retomou suas tarefas quando Andrei reassumiu a firmeza de sempre: apanhou uma das bombas de pólvora e procurou o isqueiro de sílex para acender o pavio. Enquanto isso, a prece do frei finalmente terminou e mestre e aprendiz sentiram uma energia motivadora e uma tranqüilidade fraternal em seus corações. Andrei desfez a careta de raiva e respirou agradecido:
— Obrigado, Frei. Eu estava mesmo precisando…
Contando até três, lançou a bomba acesa num arco amplo e gritou para todos taparem os ouvidos. Calculou seu arremesso com perfeição; a explosão aconteceu perturbadoramente perto, bem no meio do grupo de zumbis mais próximos.
Gino foi o primeiro a destapar os ouvidos, com pressa de retomar seu trabalho. Desfez a careta de susto pelo barulho só para torcer de novo o nariz por causa do fedor. O cheiro de carne podre e queimada tomou conta. Agora o menino já tinha as mãos ocupadas e como não podia abanar o rosto, se forçou a ignorar o mau cheiro e falar rápido, destacando seu sotaque nasalado:
— Pistolas prontas, señior!
Andrei reabriu as mãos e num instante tinha suas armas de volta impecáveis; prontas e carregadas. Só depois Gino tossiu de lado, fazendo a boina folgada escorregar e recair de lado sobre sua testa.
De pistolas em punho, Andrei olhou nos olhos do garoto e pensou que dentro de alguns anos Gino se tornaria um talentoso atirador. O menino só tinha aparecido recentemente, atraído pela reputação de Andrei como especialista na arte do tiro e na química da pólvora. Assim como ele, o garoto perdeu sua família vítima de monstruosidades noturnas e queria vingança. Por hora, ele mantinha as armas de Andrei perfeitamente limpas e preparadas enquanto equilibrava sobre a cabeça aquela boina velha de que tanto gostava.
— Mestre, tem mais deles vindo por ali! — apontou Gino, assustado — Eles estão por toda parte!
— Eles não estão mais aqui — interrompeu o sacerdote — não passam de um monte de cadáveres amaldiçoados. Nosso dever é destruí-los e lhes conceder o descanso eterno.
Surpreendentemente, o sacerdote não apresentava o mínimo tremor de inquietação.
— Mantenha-os à distância, Frei — pediu Andrei — lutaremos contra eles até que não sejam mais nada além de cinzas!
O frei se apoiou no cajado e se pôs de pé. Deu um passo e protegeu melhor o garoto e o arsenal de pólvora. Com o colar do amuleto entrelaçado numa das mãos, levantou-se e esbravejou:
— Mira firme e fé na aurora, Andrei! E você, garoto Gino — inclinando a ponta curva do cajado de madeira na direção do moleque — continue recarregando essas armas! Toda a perícia do seu mestre não nos serve de nada sem a sua habilidade e dedicação.
Silas era um sacerdote veterano e competente quando o assunto eram batalhas contra os mortos-vivos. Ele reclinou levemente o queixo em contemplação e cerrou o punho em torno do seu amuleto sagrado — uma estrela dourada sobre um disco de madeira escura. Esticou-o na direção dos zumbis e, numa fleuma implacável, aprumou o tronco numa pose majestosa. Depois, rugiu contra as criaturas, com uma certeza esmagadora na voz:
— Em nome do Senhor da Manhã, afastem-se e não nos importunem mais!
Franziu o cenho enquanto lutava para impor a força de sua fé contra a maldição dos zumbis. Não conseguiu evitar o frêmito de epifania quando sentiu sua prece alcançar a consagração. Uma onda de poder fluiu através do seu corpo e brilhou fortíssima como um pequeno sol através do amuleto sagrado. Andrei e Gino mal tiverem tempo de recobrir os olhos antes que a linha mais próxima de mortos cambaleantes fosse arremessada violentamente para trás pela energia brilhante, atropelando as demais fileiras e obrigando a ala dianteira da hoste de monstros a recuar.
Piscando os olhos, Gino festejou em brado e riso. Andrei sorriu também. O frei era a prova viva de qual era o lado pelo qual eles estavam lutando:
— Ótimo, frei. Isso me dará mais tempo para atirar. Basta que você os mantenha onde estão e nós acabaremos com todos eles, um por um.
Depois, saiu de lado detrás da carroça apanhando uma espingarda de mão que descansava recostada no arsenal. Era pouco maior e mais robusta que as pistolas, e Andrei engatilhou-a com toda agilidade natural de um verdadeiro mestre — bastou um giro do seu pulso e, num estalo metálico, sentiu os cartuchos encaixando na culatra. Completou a manobra de recarga apoiando o cano sobre o outro antebraço. Separou as pernas em busca de apoio e fez mira apoiando a base do cabo diante do ombro. Atirou.
Gino até se encolheu diante da explosão que seguiu. Caíram três zumbis de uma só vez. Com outro giro habilidoso, Andrei rearmou a espingarda e disparou mais uma vez; a detonação praticamente desintegrou outros dois zumbis.
Entrou de volta na carroça com os ouvidos zunindo. Protegeu-se agachado na posição inicial e o garoto já lhe esticava novamente o primeiro par de pistolas, limpas e recarregadas. Levantou rápido e descarregou as duas de pronto. Ao retornar, recebeu automaticamente um segundo par de armas totalmente preparadas. Sorriu satisfeito para o garoto, que retribuiu meio tímido antes de mergulhar sua atenção na poderosa cartucheira vazia e na caixa de munição. Agora já havia algum espaço para raciocinar novamente.
Num misto de orgulho, afronta e confiança, Andrei girou as pistolas nos indicadores enquanto traçava mentalmente seus próximos disparos. Terminou o giro intercalando disparos sem errar. Ainda em pé, trocou armas com o garoto outra vez.
O frei já havia se ajoelhado novamente em oração. Rezava em silêncio para que a mira de Andrei não falhasse e a munição e o fôlego de seus amigos durasse o bastante para que todos esses fantoches malditos fossem abatidos.
A aurora estava distante. Essa noite seria longa e estava apenas começando.
Muito bom, Bruno. Instigante, segura o leitor até o fim. Movimentado, mas nem por isso com falta de detalhes importantes. Adorei. Um beijo.
Ufa! Você não sabe como fiquei feliz de estar em segurança acompanhando essa narrativa. Os detalhes que você descreve nos coloca tão junto dos personagens que me peguei fazendo careta quando você descreve o cheiro dos cadáveres, a cena dos pedaços de carne voando pelo espaço. Senti como se estivesse assistindo a sua história numa tela invisível diante de mim. A narrativa bem construída não nos deixa parar de ler, mas há também a angústia em imaginar a luta dessas pessoas, a necessidade primeira de não esmorecer em fé e força. E saber que muito mais pode acontecer com eles…
Concordo com a Olga, você consegue nos fazer entrar totalmente nesse clima sórdido e de luta pela sobrevivência. Difícil é lavar e sair andando depois disso…rsrs Como volto ao meu normal? Você tem a fórmula?
Bruno, nada mais a dizer além do que disseram as meninas aí acima…Parabéns pelas suas criações.
Tem postagem nova no Desassossego…nova parte do conto.
Aguardo vc.
Sady
Olá Bruno,
Amei o teu texto. Muito bom! Preciso! Fantástico! Impactante! Forte Abraço! Tomei a liberdade de linkar o teu blog ao meu, ok?
[...] do meu notório interesse por obras relacionadas ao tema do horror (em especial às tramas sobre epidemia zumbi), você deve ter percebido pelo título desse post que o enredo não foi único motivo do meu [...]