Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Azrael (v 1.1)

junho6

Eis que eu envio um anjo diante de ti,
para que te guarde pelo caminho,
e te leve ao lugar que te tenho preparado.

— Êxodo 23:20

Gosto férreo de sangue e música ensurdecedora. A cabeça dolorida lateja com as pancadas compassadas e frenéticas de um sintetizador onipresente. Sente seus calcanhares arrastando no chão e, pouco a pouco, ouve a música ficar abafada e distante. Olhos inchados. Força a abrí-los e acompanha o rastro de gotas escarlates em pingos pelo chão de sombras que escorre abaixo de si. Um ranger de porta sendo aberta; fundos de espelunca, pelo barulho. Pisca e dorme.

Mandíbula contra o chão de um beco sujo. Volta à tona. Cheiro adocicado; lixo podre e esgoto. Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Contorce as fraturas dolorosamente na direção da voz: uma silhueta caminha contra a luz parda de um poste velho. Jeans, jaqueta e calça. Pés descalços na direção do seu rosto. Um chute firme entre o nariz e a sobrancelha explode em vertigem seu septo e um supercílio. Negrume e dor. Visco e sangue. E foi ele a seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui; quem és tu, meu filho? Cuidadosamente, dedos se entrelaçam nos cabelos da nuca e lhe socam a cabeça três vezes contra a calçada úmida: testa, queixo e nariz. Pretidão e torpor.

O barulho da roupa sendo rasgada aos trancos. Para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti. Não havia céu nem chão. Luz, nem sombra. O ar assovia pelos gomos de um pedaço de corrente. Zunido lancinante. Zunido entorpecente. Dormência. Logo vem um chute forte no estômago que traz um gosto ácido de mostarda e pimenta ao nariz. Engasga com o jato expelido pela boca. Tosse e recebe outra pancada pesada no rosto; joelho ou cotovelo. Dentes quentes e moles. Sangue e vômito. Retorce-se. Enquanto junta forças para pigarrear, sente o afagar nos seus cabelos úmidos, tirando-os carinhosamente da face. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Afasta-se.

Termina de quebrar um pulso tentando acuar-se e grita ao estralo seco. Soluça e ouve latas caindo. Pés saem pelas poças do beco. Por instantes, os borrões adiante ficam estranhamente nítidos. Jaqueta no chão e costas nuas. Um majestoso par de asas de penas cândidas. Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.

E voa para nunca mais voltar.

Postado como Ficção Fantástica
8 Comentários sobre

Azrael (v 1.1)

  1. Em 30 de maio de 2008 ás 5:35 pm Nanete disse:

    Punhos quebrando, estralo seco. Uau, Bruno… Você vive me pondo em desassossego…

    Beijo

  2. Em 31 de maio de 2008 ás 10:56 am João F. A. Cunha disse:

    Fazer doer a alma não é tão fácil quanto parece… Talvez seja mais fácil que fazer rir… Talvez não… Depende de quem escreve… E depende de quem lê!

    Doeu de verdade, ler este texto. Excelente!

    Abraços,

  3. Em 2 de junho de 2008 ás 10:00 am Sue disse:

    Que saudade da Lorenna, rs.

    Muito bom o texto. É de prender a atenção, a respiração, o fôlego, etc.
    Gostei muito. Fico na expectativa de ver muitos outros agora. :-)

  4. Em 5 de junho de 2008 ás 12:43 am Peterso disse:

    Bruno,

    Me lembrou Laranja Mecânica, sem o idioma esquisito. E me lembrou minha época de RPG (sim, eu também já joguei, na época de D&D). E o ritmo é o que eu mais gosto. Quebrado, como os ossos do coitado que encontrou o Azrael.

    Até amanhã.

  5. Em 6 de junho de 2008 ás 3:54 am Bruno Cobbi disse:

    Atualizei o tempo verbal e fiz uma correção cacofônica.

    Nana, John e Petê: obrigado a todos pela elegância e crítica nos elogios. Um agradecimento especial à Sue, que é uma antiga leitora (e parceira de contos) que retorna às minhas humildes paragens.

    Seja bem vinda! :-D

  6. Em 6 de junho de 2008 ás 10:07 am Eduardo disse:

    Oi Bruno,

    Credo! Estou todo arrebentado :D

  7. Em 8 de junho de 2008 ás 8:42 pm Clau* disse:

    Oi, Bruno.

    Que texto intenso. Senti cada golpe, no corpo e na emoção. Muito bom.

    Um beijão.

  8. Em 4 de dezembro de 2008 ás 5:48 pm Bruno Cobbi disse:

    Olá,

    Escrevi uma nova versão desse conto aqui.

    Confira! :-)

Não será divulgado

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