Azrael (v 1.1)
Eis que eu envio um anjo diante de ti,
para que te guarde pelo caminho,
e te leve ao lugar que te tenho preparado.
— Êxodo 23:20
Gosto férreo de sangue e música ensurdecedora. A cabeça dolorida lateja com as pancadas compassadas e frenéticas de um sintetizador onipresente. Sente seus calcanhares arrastando no chão e, pouco a pouco, ouve a música ficar abafada e distante. Olhos inchados. Força a abrÃ-los e acompanha o rastro de gotas escarlates em pingos pelo chão de sombras que escorre abaixo de si. Um ranger de porta sendo aberta; fundos de espelunca, pelo barulho. Pisca e dorme.
MandÃbula contra o chão de um beco sujo. Volta à tona. Cheiro adocicado; lixo podre e esgoto. Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Contorce as fraturas dolorosamente na direção da voz: uma silhueta caminha contra a luz parda de um poste velho. Jeans, jaqueta e calça. Pés descalços na direção do seu rosto. Um chute firme entre o nariz e a sobrancelha explode em vertigem seu septo e um supercÃlio. Negrume e dor. Visco e sangue. E foi ele a seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui; quem és tu, meu filho? Cuidadosamente, dedos se entrelaçam nos cabelos da nuca e lhe socam a cabeça três vezes contra a calçada úmida: testa, queixo e nariz. Pretidão e torpor.
O barulho da roupa sendo rasgada aos trancos. Para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti. Não havia céu nem chão. Luz, nem sombra. O ar assovia pelos gomos de um pedaço de corrente. Zunido lancinante. Zunido entorpecente. Dormência. Logo vem um chute forte no estômago que traz um gosto ácido de mostarda e pimenta ao nariz. Engasga com o jato expelido pela boca. Tosse e recebe outra pancada pesada no rosto; joelho ou cotovelo. Dentes quentes e moles. Sangue e vômito. Retorce-se. Enquanto junta forças para pigarrear, sente o afagar nos seus cabelos úmidos, tirando-os carinhosamente da face. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Afasta-se.
Termina de quebrar um pulso tentando acuar-se e grita ao estralo seco. Soluça e ouve latas caindo. Pés saem pelas poças do beco. Por instantes, os borrões adiante ficam estranhamente nÃtidos. Jaqueta no chão e costas nuas. Um majestoso par de asas de penas cândidas. Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.
E voa para nunca mais voltar.

Punhos quebrando, estralo seco. Uau, Bruno… Você vive me pondo em desassossego…
Beijo
Fazer doer a alma não é tão fácil quanto parece… Talvez seja mais fácil que fazer rir… Talvez não… Depende de quem escreve… E depende de quem lê!
Doeu de verdade, ler este texto. Excelente!
Abraços,
Que saudade da Lorenna, rs.
Muito bom o texto. É de prender a atenção, a respiração, o fôlego, etc.
Gostei muito. Fico na expectativa de ver muitos outros agora.
Bruno,
Me lembrou Laranja Mecânica, sem o idioma esquisito. E me lembrou minha época de RPG (sim, eu também já joguei, na época de D&D). E o ritmo é o que eu mais gosto. Quebrado, como os ossos do coitado que encontrou o Azrael.
Até amanhã.
Atualizei o tempo verbal e fiz uma correção cacofônica.
Nana, John e Petê: obrigado a todos pela elegância e crÃtica nos elogios. Um agradecimento especial à Sue, que é uma antiga leitora (e parceira de contos) que retorna à s minhas humildes paragens.
Seja bem vinda!
Oi Bruno,
Credo! Estou todo arrebentado
Oi, Bruno.
Que texto intenso. Senti cada golpe, no corpo e na emoção. Muito bom.
Um beijão.
Olá,
Escrevi uma nova versão desse conto aqui.
Confira!