Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Biquíni Branco (v 1.0)

junho3

E lá estava eu, moreníssima, deitada me bronzeando na areia cheirosa da Praia da Joaquina. Torrando no sol gostoso da manhã de Florianópolis. Sol, maresia, férias merecidas.

Um assoviozinho aqui, outro elogiozinho ali, mas nenhum olhar deixava de percorrer meu bronzeado por alguns instantes (ás vezes bem longos). A canga era transparente, mas pus a culpa no biquíni branco que resolvi debutar aqui, na viagem pro sul.

A estréia dele foi um fracasso, com direito a escândalo do ex e tudo. Fio dental, óbvio. O Beto tinha dado aquele vexame e agora eu estava começando a achar que entendia o pobre coitado. Mantive a tanga minúscula guardada na gaveta até mesmo depois que terminei com ele, no mês passado. Quando recebi a notícia que a companhia tinha aceitado meu pedido de férias, o biquíni foi pra mala na hora! Não sei o que me deu. Enquanto me ajudava a escolher as roupas pra viagem, a Bia encontrou por acaso a calcinha na minha mala. Ela sacudiu aquilo na ponta dos dedos em tom de mãe que vem tirar satisfação com a filha travessa e falou “Tate, você é uma vaca mesmo, hein!?!”. Nos rachamos de dar risadas.

Antes de sair do hotel, quando me olhei de costas no espelho, entendi que eu devia ser uma vaca mesmo. Com os fundilhos enfiados bem lá dentro, minha bunda ficava ainda mais chamativa do que de costume. Curvas perfeitas e todas de fora. “Preferência nacional” como dizia o Beto. O branco brilhante do poliéster contrastava forte com o dourado da minha pele e eu me senti realmente “poderosa”. Quase escutei a Bia dizendo naquele sotaque arrastado do interior que ela tem “Viu?! Uma biscate das braba!”. Dei risada sozinha. Amarrei a canga e saí rebolando saguão afora.

A praia era tão perto que se eu tropeçasse na escada do hotel já caía deitada na areia. Mesmo assim, o trajeto foi tempo suficiente pra eu perceber que a platéia estava gostando. Primeiro foi o taxista na porta do hotel que parou a conversa sobre o jogo de futebol da noite anterior quando eu passei (pareceu inevitável pra ele). O vendedor de amendoins tropeçou e quase caiu de boca na areia. Depois foram os dois surfistas — um deles até levantou os óculos escuros pra que eu visse direitinho pra onde ele estava olhando e de onde vinham os sorrisos e comentários que eles trocaram entre si. Quando eu abaixei pra estender a canga, a esposa do babaca no guarda-sol do lado deu três tapas tão ardidos no braço dele que eu ouvi de longe. Homem é tudo igual mesmo.

Quando eu cheguei, ainda meio tímida, deitei com as costas na toalha. Depois fui me soltando e resolvi virar de bruços. Gerou o efeito esperado. Os olhares triplicaram e, uns dois tapas estralados depois, o casal do guarda sol vizinho foi embora da praia. Ela parecia bem nervosa. Com toda razão. Também, quem mandou não se cuidar querida? Ser “sarada” dá um trabalho danado, sabia?

Foi aí que ele chegou. Não o vi se aproximar e me assustei. Quando eu vi aquele negão enorme sentando do meu lado e dando um “bom dia, princesa”, eu quase cuspi meu coração na areia de susto. A voz era firme e sonora, meio gutural, mas gostei da abordagem. Depois de tanto “gostosa”, “tesão” e “filé”, a educação dele acabou me chamando a atenção e despertando minha curiosidade. Nada contra os braços musculosos, o abdome definido e a boca linda que ele trazia consigo, mas, no final das contas, foi a educação dele que me fez ter vontade de lhe dar alguns minutos da minha atenção ociosa.

“É Antônio, mas pode chamar de Toni”. O sotaque estava bem escondido pela voz atraente, mas eu num pude deixar de notar. Conversa vai, conversa vem e descobri que, embora não aparentasse, ele era quatro anos mais velho que eu (parece incrível como negros não demonstram idade), vinha de Feira de Santana e estava aqui no sul á trabalho. O papo foi divertido. Ele manteve os olhos nos meus e tinha o sorriso fácil. Toni era simpático e, de quebra, era bonito e gostoso. “Tate! Que tesão de homem!” escutei a Bia falar na minha cabeça. Óbvio que me interessei.

A hora voou e o papo terminou quando os amigos dele chamaram de longe pra jogar bola. Trocamos celulares sem nada combinado, mas acompanhei de longe os sorrisos e piadas dos amigos enquanto Toni se juntava a eles. Não me segurei e sorri detrás dos óculos escuros. Eles viram e apontaram na minha direção. Ele me olhou de longe e sorriu de volta.

Já era.

Coloquei Tiesto pra tocar bem alto no iPod e esqueci que estava de fio-dental. Eu era uma vaca mesmo. “Que pedaço de negão, hein amiga!”. Dei risada sozinha e deitei de novo pra me bronzear.

Postado como Ficção Cotidiana
6 Comentários sobre

Biquíni Branco (v 1.0)

  1. Em 5 de junho de 2008 ás 12:03 am Marcia Olivieri disse:

    Oi Bruno, diferente este estilo… Olha e eu pensando que ela ia se transformar em algo!!! Mas, valeu! Tem estilo! Gostei do bom-humor!

  2. Em 5 de junho de 2008 ás 2:34 pm Nanete disse:

    Arrasou na versatilidade!!!!

    Adorei essa sua criação da Tate, sensualíssima, e o armário interessante do Toni.

    E, fála sério, não é muito mais gostoso do que escrever sobre vampiras e mortas-vivas? rs

    Essa, Tate aí, pelo visto, é vem vivinha, e pode se transformar sim: em várias personagens saborosas como ela… rs

    Delicioso de ler, parabéns!

  3. Em 5 de junho de 2008 ás 2:53 pm Olga disse:

    Bruno, que bacana essa incursão pelo mundo feminino. Se mostrar esse texto para alguém sem dizer que é de um autor e não de uma autora, acreditamos realmente que a figura bem resolvida dessa Tate é quem está contando a estréia do famigerado biquíni.

    Assim como a Márcia e a Nanete, não conseguia imaginar você escrevendo tão longe do fantástico e mesmo assim sendo tão gostoso de ler. (Não conte para ninguém, mas só de imaginar a Tate desfilando na praia pensei: exibida! metida! só porque pode abusa! Pura inveja, pura inveja feminina — olha só o que você despertou…).

    Parabéns!

  4. Em 6 de junho de 2008 ás 3:51 pm Eduardo disse:

    Bruno: vc. quer me matar?

  5. Em 7 de junho de 2008 ás 7:08 am Bruno Cobbi disse:

    Olá às garotas (Marcia, Nana e Olga).

    É uma tarefa muito complicada tentar imaginar como a cabeça de uma mulher funciona, mas fico feliz que tenha conseguido prender a atenção de vcs até o final, mais ainda de ter recebido elogios de uma professora e duas das minhas ídolas! Estou orgulhoso da Tate!

    Entretanto tenho que confessar que a história, obviamente é baseada em fatos reais, então eu tive uma ajudinha! ;-)

    Comentário inevitável:

    Bruno (dois pontos), vc quer mem matar?

    O Seu Eduardo é uma figuraça! Me amarro! Rolei de rir sozinho aqui em casa com o comentário e me enchi de orgulho pelo elogio! :D

    Obrigado pela leitura e mais ainda pelos comentários!

  6. Em 23 de junho de 2008 ás 5:52 pm Morena disse:

    Muito bom, achei leve, natural, descontraido. Senti falta dos comentários femininos das garotas ao redor (que tambem circulavam por ali) sabe?

    Sim porque a morena causou um bocado na praia né, rs.

    GOSTEI!

    Sucesso, Aprendiz!

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