Azrael (v 1.2)
Eis que eu envio um anjo diante de ti,
para que te guarde pelo caminho,
e te leve ao lugar que te tenho preparado.
— Êxodo 23:20
Eis que eu envio um anjo diante de ti,
para que te guarde pelo caminho,
e te leve ao lugar que te tenho preparado.
— Êxodo 23:20
Havia — e ainda há — uma guerra. Não importa qual delas, afinal todas tratam do mesmo assunto. O que estou prestes a relatar, aconteceu numa das batalhas dessa guerra, numa disputa por fronteiras num canto esquecido do mundo.
A escaramuça contra uma minoria insistente de perdedores locais se alongava mais do que o previsto. O regente da maioria invasora de vencedores — o lado ao qual eu aliara meus interesses — tinha planos maliciosos para acabar com essa resistência: ele descobriu um ponto desprotegido na linha de defesa inimiga e enviaria o nosso destacamento — seus melhores e mais audazes guerreiros — com o objetivo de contornar a defesa inimiga para fazer um ataque combinado. Vitória garantida. Treinamos e nos preparamos como nunca para aquela noite, mas não havia como nenhum de nós estar pronto para o que encontramos no caminho.
Deus chamou à luz, dia, e, às trevas, chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia.
— Gêneses 1:5
Como de costume, pousei no parapeito da varanda que fica no sobrado da Gabriel dos Santos, oitenta e oito. Como eu gosto dessa casinha; bem iluminada, colorida e feliz. Ela tem cara mesmo de oitenta e oito, com dois infinitos, um dentro do outro. E não podia estar num lugar diferente, afinal o oitenta e oito da Gabriel dos Santos é uma escola.
Deserto dos Crânios. Hoje completo meu primeiro cento nesse lugar — isso inevitavelmente me lembra que já faz mais de dois anos que matei meu irmão — e pela primeira vez desde então, paro para descansar e começar a registrar os resultados de minha busca. Em parte, esse deserto é igual a todos os outros que atravessei: areia, calor e morte sempre à espreita, mas aqui, assim como em toda parte por onde vaguei nesse mundo estranho, o céu é rubro como num crepúsculo infinito. Segundo os beduínos nativos, há poucos anos o dia estranhamente nunca mais amanheceu. Eles chamam esse fenômeno de Escuridão Carmim.
Eis que eu envio um anjo diante de ti,
para que te guarde pelo caminho,
e te leve ao lugar que te tenho preparado.
— Êxodo 23:20
— Não dá pra rezar mais rápido? — apressou Andrei, gritando.
Depois cerrou os olhos, emparelhou as pistolas e disparou ambas de uma só vez. Desenhou duas linhas precisas no meio da fumaça dos tiros e da névoa da noite. Atingiu certeira e ferozmente o grupo de criaturas mais próximas que cambaleavam na sua direção. Antes que ar se enchesse de pólvora e eco, os primeiros alvos foram projetados sobre os demais com grandes pedaços de carne arrancados do corpo. Lentos e desajeitados, insistiam em se reerguer incansáveis, mesmo depois de serem derrubados em pedaços contra o chão.
Dorien acordou. Já era noite.
Sentira falta do amigo estrangeiro. Ele ficou desaparecido por muito tempo e agora ela finalmente o reencontrava. Era estranho, pois esteve procurando por ele durante tanto tempo e agora, de repente, acordava com o amigo sentado diante das brasas do mesmo acampamento, como se ele nunca tivesse saído de lá.