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	<title>Aprendiz de Escritor &#187; Ficção Fantástica</title>
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	<description>Aqui, eu posto os meus exercícios — trechos da ficção que eu tanto gosto de escrever — e os meus ensaios, crônicas, artigos, dicas de eventos, de livros, de filmes e tudo o que eu acho pertinente a esse mundo no qual eu estou entrando agora: o de escritor.</description>
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		<title>Azrael (v 1.2)</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 19:33:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
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		<description><![CDATA[Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado. — Êxodo 23:20 Gosto férreo de sangue e música turbulenta. Cabeça dolorida, latejando nas pancadas frenéticas de um sintetizador onipresente. Calcanhares arrastando no chão e a percussão se afastando. Olhos inchados. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Eis que eu envio um anjo diante de ti,<br />
para que te guarde pelo caminho,<br />
e te leve ao lugar que te tenho preparado.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;">— Êxodo 23:20</p>
<p><span id="more-644"></span></p>
<p>Gosto férreo de sangue e música turbulenta. Cabeça dolorida, latejando nas pancadas frenéticas de um sintetizador onipresente. Calcanhares arrastando no chão e a percussão se afastando.</p>
<p>Olhos inchados. Força para abri-los. Gotas escarlates no chão de sombras que escorre abaixo. Ranger de porta sendo aberta: barulho de fundos de espelunca. Pisca ou dorme?</p>
<p>Mandíbula contra o chão de um beco. Cheiro podre e gosto doce. <em>Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?</em> Na direção da voz: uma silhueta contra a luz parda de um poste velho. Jeans, jaqueta e calça. Pés descalços entre a face e o chão. Silêncio e sereno.</p>
<p>Um chute firme explode o septo e um supercílio em vertigem. Dor negra. Visco doce e sangue azedo. Cuidadosamente, dedos se entrelaçam nos cabelos. <em>E foi ele a seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui; quem és tu, meu filho?</em> Rosto três vezes contra a calçada; testa-queixo-nariz. Pretidão morna. Torpor pegajoso.</p>
<p>Barulho e trancos de roupa rasgando. <em>Para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti.</em> Nem céu nem chão, nem luz nem sombra, só o assovio — gomos de metal num zunido lancinante e entorpecente. Dormência. Um chute no estômago engasga a boca. Gosto ácido no nariz; mostarda ou pimenta? Tosse. Pancada no rosto; joelho ou cotovelo? Dentes quentes e moles. Sangue ou vômito?</p>
<p>Protege e estrala. Junta forças ou pigarreia? Afagos nos cabelos úmidos, tirados carinhosamente da face. <em>Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.</em> Assusta e afasta. Quebra o pulso tentando acuar-se. Grito ou estralo seco? Soluço e silêncio.</p>
<p>Latas latindo e pés pelas poças. Borrões nítidos. Jaqueta no chão e costas nuas. Um majestoso par de asas de penas cândidas. <em>Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.</em></p>
<p>E voa.</p>
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		<title>Luriel v1.1</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 20:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>

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		<description><![CDATA[Havia — e ainda há — uma guerra. Não importa qual delas, afinal todas tratam do mesmo assunto. O que estou prestes a relatar, aconteceu numa das batalhas dessa guerra, numa disputa por fronteiras num canto esquecido do mundo. A escaramuça contra uma minoria insistente de perdedores locais se alongava mais do que o previsto. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Havia — e ainda há — uma guerra. Não importa qual delas, afinal todas tratam do mesmo assunto. O que estou prestes a relatar, aconteceu numa das batalhas dessa guerra, numa disputa por fronteiras num canto esquecido do mundo.</p>
<p>A escaramuça contra uma minoria insistente de perdedores locais se alongava mais do que o previsto. O regente da maioria invasora de vencedores — o lado ao qual eu aliara meus interesses — tinha planos maliciosos para acabar com essa resistência: ele descobriu um ponto desprotegido na linha de defesa inimiga e enviaria o nosso destacamento — seus melhores e mais audazes guerreiros — com o objetivo de contornar a defesa inimiga para fazer um ataque combinado. Vitória garantida. Treinamos e nos preparamos como nunca para aquela noite, mas não havia como nenhum de nós estar pronto para o que encontramos no caminho.</p>
<p><span id="more-532"></span></p>
<p>Dias antes do ataque, fiquei responsável por vasculhar os escombros e túneis da ruína por onde invadiríamos o território inimigo e assegurar a rota dos nossos guerreiros nessa manobra militar decisiva. Como vocês verão adiante, minha memória não é meu tesouro, mas lembro nitidamente do calafrio que me correu pela espinha quando coloquei meus olhos naquelas ruínas pela primeira vez. Senti algo de errado ali dentro. Entretanto, por mais que eu procurasse, acabei sem encontrar nada, apenas os restos de uma construção muito antiga — um forte, mausoléu, masmorra ou templo abandonado há muitos anos e engolido pela paisagem na vastidão. Tinha pertencido ao passado remoto da região e agora não passava de um obstáculo de guerra abandonado, um buraco numa fronteira mal protegida.  Negligenciei minha intuição e reportei segurança ao regente. Recebi elogios e o plano seguiu, mas na noite do ataque, o arrepio voltou. Não era a má impressão que as trevas causavam. Não era a ansiedade pela vitória iminente.</p>
<p>Era <em>aquele</em> arrepio.</p>
<p>Um fedor pútrido se espalhava pelo ar rarefeito das ruínas. Estávamos poucos metros abaixo da terra, mas nos sentíamos em verdadeiras profundezas abandonadas. Embora a aparência do lugar fosse completamente outra, o mapa que tracei continuava correto — e se assim fosse, ele nos levaria para a superfície em pouco menos de uma hora. O caminho não seria longo até nosso destino; atravessaríamos as ruínas a pé e garantiríamos o sucesso daquela missão. Aquele era o único caminho oculto e desprotegido, o próprio regente havia constatado isso no seu delicado planejamento militar.</p>
<p>Alguns de nós carregavam tochas acesas, mas todos mantinham as armas em riste e os olhos atentos. Percebi de imediato que a tensão não era apenas minha. Nosso líder guardava silêncio diante de nós e, embora nosso passo fosse acelerado pela necessidade de chegar ao outro lado a tempo, andávamos rápido também por receio daquele subterrâneo claustrofóbico e escurecido.</p>
<p>Atingimos o meio do trajeto — o salão maior, onde jaziam os restos de uma velha carranca de rocha. Nesse ponto, um sopro gélido nos surpreendeu e apagou todas as tochas. Os homens se olharam assustados e o líder interrompeu o passo. Não havia nenhum som além de respirações ofegantes. Senti — e tenho certeza de que não fui somente eu — um arrepio imediato e sinistro. O líder quebrou o silêncio chamando pelo sacerdote que, prontamente, gesticulou e sussurrou fazendo surgirem pequenos globos de uma luz azulada e fraca. Foi o bastante para que víssemos o que nos aguardava naquele saguão ancestral.</p>
<p>Distinguimos sombras nos cercando. Cerca de uma dúzia, do tamanho de árvores. O silêncio deu lugar ao desespero e a luz do sacerdote se transformou num brilho ofuscante. Ela arrancou urros esganiçados das silhuetas e revelou a natureza macabra dos habitantes daquela câmara. Eram criaturas deformadas, pálidas, que pouco lembravam gente. Sua pele era retorcida e colada em ossos protuberantes, debaixo de andrajos escuros e apodrecidos. As bocas se esticavam para gritar, abrindo o maxilar em ângulos bizarros e impossíveis. Os dentes amarelados formavam fileiras de serras afiadas e os olhos eram totalmente negros, como os de um tubarão do mar. As mãos, desproporcionalmente maiores, não carregavam quaisquer armas nem garras e os monstros pareciam flutuar como gênios ou fadas, recuando diante do brilho voraz emitido pelo feitiço do velho bruxo.</p>
<p>Detrás de nossos escudos, entendemos que a luz os feria. Num puxão violento, uma das criaturas arrastou o sacerdote para longe de nós. As demais se amontoaram como uma nuvem sobre ele, sugando-lhe o ar, o sangue ou algo do tipo, ignorando a luz ao redor. Num só instante, o pobre velho gritou, minguou e se retorceu, transformando-se numa múmia negra e magra, até se tornar parte da nuvem e dar origem a outro daqueles horrores flutuantes.</p>
<p>Alguns ameaçaram correr, desesperados como ratos assustados. No meio de nós, o líder latiu ordens em vão, pois uma sensação de medo mais antiga que o mundo dominava as almas daqueles bravos guerreiros. Era algo além do sobrenatural. Os que tentaram lutar não feriram as criaturas — as armas trespassavam os corpos fantasmagóricos e distorcidos dos inimigos — e diante disso, não havia nada a fazer além de formarmos um estouro de fugitivos em direção à saída. Em questão de instantes, o líder clamou debandada já praticamente sozinho na retaguarda dos sobreviventes.</p>
<p>Os gritos e urros que nos perseguiam pareciam vindos das profundezas do inferno. A luz do sacerdote ficou para trás — ou talvez tenha apagado, ou sido apagada, não sei — mas logo a escuridão voltou a tomar conta. Enquanto corríamos, quem tentava lutar ou ficava para trás era tragado violentamente pela escuridão, aos gritos. O líder insistia em palavras de fuga para aqueles que resistiam, mas nada suprimia o desespero da morte iminente. Até que o próprio comandante despencou no chão.</p>
<p>Inexplicavelmente, contive meu pânico e parei para ajudá-lo. Um uivo terrível o arrastou para as trevas e lutei com todas as forças para não permitir que também fosse levado, mas nada pude ver ou fazer — arrancaram-no dos meus braços e ainda pude ver o desespero no fundo da garganta dele e na ponta das unhas que ficaram no chão da cripta. Dei as costas e corri como nunca na vida. Quando vislumbrei a luz da lua na embocadura do arco de pedra que levava à saída, senti meus pés deslizarem e se encontrarem. Caí como trovão sobre o chão de pedra daquele último corredor. Sangue talvez. Não importava. Nada mais importava. Me desesperei. Eu morreria em instantes e o último grito que eu ouviria seria o meu.</p>
<p>Imediatamente, o uivo me alcançou e senti um novo sopro súbito de ar gélido, tão próximo do meu rosto que mal pude respirar. Num espasmo, senti uma dor indescritível — como se me prendessem anzóis por toda garganta, peito e coração ou como se eu engolisse milhares de milhagas de vidro cortante — era a vida sendo arrancada pelos meus pulmões. O frio entrou pela minha boca e me endureceu por dentro, anestesiando a dor e criando uma angústia enlouquecedora. O ar sumia rapidamente e minha vida ia-se com ele. Presumi que morreria e fechei os olhos com força. Só os reabri assustado pela vermelhidão repentina debaixo das minhas pálpebras. Era uma forte luz amarela que surgia na outra ponta do túnel.</p>
<p>Era quente. Anestesiava a dor e removia a angústia. Achei que era a morte chegando para me consolar, recebendo-me em seus braços, mas retomei parte da consciência para ouvir as criaturas rugirem de dor novamente. Elas recuaram aterrorizadas e tudo ficou claro como um dia de sol. Não pude ver o que as espantava no coração do clarão amarelo. Era como o próprio sol, só que agora ao meu lado, quase dentro de mim. Meus olhos falharam, não senti minha voz, meu corpo não respondeu e tudo ao meu redor se apagou.</p>
<p>Durante três dias, vivi num pesadelo constante. Via vultos me perseguindo e via o rosto deformado dos horrores flutuantes. Sentia o toque gélido das criaturas no cativeiro de um túnel sem fim. Quando reabri meus olhos, estava de volta ao acampamento. Soube que mais ninguém sobreviveu àquela manobra. Me encontraram inconsciente, bem distante das ruínas e, estranhamente, não me perguntaram quase nada. Dias depois, sem maiores explicações, o regente levantou a acampamento e declarou recuo. Perdemos a batalha, mas eu perdi muito mais do que isso naquela noite.</p>
<p>Quando caí em mim, percebi que não recordava de nada que ocorrera antes desse acidente, como se não tivesse acontecido nada antes dele e eu tivesse nascido ali. Não havia família, não havia nome e não havia amigos. Tudo havia sumido da minha memória. Se já não bastasse, quando pude finalmente levantar-me e sair da enfermaria, os olhares do acampamento me coagiram. Por que apenas eu havia sobrevivido? Onde estavam os demais guerreiros que entraram naquelas ruínas para garantir a vitória certa? Por que as ruínas — das quais fui responsável por garantir que estavam tranqüilas para nossa passagem — estavam cheias de morte e desespero naquela noite? E por que apenas eu sobrevivi?</p>
<p>Trataram-me com desprezo e preconceito. Alguns acusaram-me de covardia enquanto outros me consolavam por ter feito o que sabia fazer de melhor: correr. No entanto, eu lembro de ter caído e perdido todas as forças ainda dentro daqueles túneis. Não se esquece assim uma dor daquelas. Eu não corri. Não saí daquele lugar amaldiçoado. Alguém me tirou de lá. Alguém ou algo que eu não sei o que foi.</p>
<p>Abandonei essa guerra poucos dias depois, em exílio sob suspeita de traição. Não senti tanto peso assim, pois ninguém que restara ali sabia nada ao meu respeito, nem tinha nada para me ajudar a recordar quem eu era. Todos com quem estive haviam morrido no meio da guerra e os últimos pereceram naquelas ruínas. Vaguei por um tempo, tentando recordar tudo o que esqueci, e conheci lugares e pessoas que me mostraram caminhos pelos quais poderia continuar seguindo. Uma dessas pessoas, um velho cego que mendigava na beira de uma estrada, me disse que eu havia ganho uma oportunidade valiosíssima: a de reescrever a história do meu destino. Uma segunda chance.</p>
<p>Sobre mim, tudo o que eu sabia é que tinha pertencido aos batedores talentosos do destacamento especial do exército daquele regente derrotado. No exército, eu tinha um nome, mas ninguém confia nos nomes da guerra. Durante noites a fio, exercitei a meditação para recobrar minhas memórias, mas não consegui encontrar nada. Aprendi que não adianta tentar recobrar o que eu perdi. Foi tudo apagado. No entanto, a meditação agora serve para que eu planeje o que farei com essa segunda chance que me foi outorgada. Hoje eu sei o que quero. Quero aprender tudo novamente e, independente de quem eu fui, amanhã serei ser melhor do que fui hoje. Serei melhor do que fui na primeira vez.</p>
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		<title>Despertar</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Nov 2008 22:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Citação]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA[crossover]]></category>
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		<description><![CDATA[Deus chamou à luz, dia, e, às trevas, chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia. — Gêneses 1:5 Baunilha inebriante mesclado em rosas. Abro os olhos e me espreguiço sobre a cama, esquecendo do mundo fora da janela. Sinto falta de algo que vagava numa brisa de outono e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Deus chamou à luz, dia, e, às trevas, chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;">— Gêneses 1:5</p>
<p><span id="more-382"></span></p>
<p>Baunilha inebriante mesclado em rosas. Abro os olhos e me espreguiço sobre a cama, esquecendo do mundo fora da janela. Sinto falta de algo que vagava numa brisa de outono e refrescava o suor do quarto. Logo me dou conta que foi apenas um sonho bom. Tudo bem. Aprendi a ser paciente.</p>
<p>Levanto e ligo o CD player. Freddie chora sobre quem quer viver para sempre. Sorrio sozinho com a ironia e refresco o rosto na torneira da suíte. No espelho, encontro apenas três décadas entalhadas no meu rosto; a barba por fazer, os cabelos lisos sem corte e a pele castigada de sol. A cicatriz ainda está lá. Suave, mas sempre lá. Ela me arrasta de volta a um lago bretão que refletia esse mesmo rosto. Eu cortava o cabelo longo pela primeira vez. Ele atrapalhava demais nos meus primeiros estudos de esgrima, uma prioridade na Idade Negra.</p>
<p>Ainda sonolento caminho até o guarda-roupas. Calça, sapato e camisa social, com dois botões abertos para exibir o dragão no colar. Cartucheira no ombro esquerdo e algibeiras transversais. Engatilho e travo a pistola sentindo saudades do meu cabelo longo. Toca o telefone.</p>
<p>Meu estômago gela.</p>
<p>Ninguém tem esse número e eu pedi que a recepção não incomodasse.</p>
<p>— Alô?<br />
— Desculpe senhor. Acho que foi engano.</p>
<p>A garota do outro lado da linha é interrompida abruptamente pelo maldito sinal de ocupado. Um falsete doce — fá menor, salvo engano. Olho para o telefone por alguns instantes e respiro aliviado enquanto o coloco de volta no gancho. Não era ela. Nem podia ser.</p>
<p>Embora pareça que foi ontem, nossa última noite juntos foi perturbada em Constantinopla. Os turcos matavam tudo o que viam pela frente da maneira mais desumana e grotesca que o frenesi da guerra os permitia. Foi uma cena terrível e quase épica: um lindo rosto que me olhava e, em silêncio, dizia que voltaria, pedindo paciência</p>
<p>Sigo para a porta do apartamento e saio vestindo o sobretudo de sarja negra. Na calçada, debaixo do sol quente e sozinho na multidão, calço os óculos escuros e abro caminho na direção de uma velha cabine telefônica do outro lado da rua. Entro e espero o telefone tocar. No teto, um adesivo desgastado indica que estou no lugar certo — um gato preto e sorridente carregando uma sacolinha de mão. Esquadrinho as redondezas em busca de um agente, mas não encontro nada além no meio da pressa e da ignorância. A campainha toca e saco o telefone do gancho o mais rápido que posso.</p>
<p>Como sempre, ninguém me vê desaparecer. Incrível como eles sempre escolhem as cabines nos lugares certos.</p>
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		<title>Andarilho Voador</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Nov 2008 07:23:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA["Era uma vez..."]]></category>
		<category><![CDATA[88]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[aura]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel dos Santos]]></category>
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		<description><![CDATA[Como de costume, pousei no parapeito da varanda que fica no sobrado da Gabriel dos Santos, oitenta e oito. Como eu gosto dessa casinha; bem iluminada, colorida e feliz. Ela tem cara mesmo de oitenta e oito, com dois infinitos, um dentro do outro. E não podia estar num lugar diferente, afinal o oitenta e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como de costume, pousei no parapeito da varanda que fica no sobrado da Gabriel dos Santos, oitenta e oito. Como eu gosto dessa casinha; bem iluminada, colorida e feliz. Ela tem cara mesmo de oitenta e oito, com dois infinitos, um dentro do outro. E não podia estar num lugar diferente, afinal o oitenta e oito da Gabriel dos Santos é uma escola.</p>
<p><span id="more-345"></span></p>
<p>Como em qualquer escola, de tempos em tempos durante os dias, ela se enche de pessoas que querem aprender coisas. Gosto de apreciar a palidez das cores na alma dos alunos que entram pelo portão branco para compará-las com a miríade em que se transformam quando, tarde da noite, eles vão embora para os seus ninhos.</p>
<p>Até algumas luas atrás, só entrava gente de alma cinza, opaca e até meio borrada. Apesar disso, sempre reparei que, depois de algum tempo de curso, os alunos costumavam estar mais brilhantes quando  saiam de lá. Alguns ficavam até meio coloridos.</p>
<p>De uns tempos pra cá começou a entrar lá uma gente colorida demais! Esse pessoal sai ainda mais radiante do que quando entra e as cores até se misturam! Uma beleza de se ver! Aliás, hoje cheguei atrasado. O vento já esfriou e isso significa que está quase na hora deles saírem.</p>
<p>Dificilmente eu me atraso, mas não sei porque ainda cismo em pegar a corrente de ar quente que passa sobre o rio podre quando isso acontece; ela nunca me serve de nada e está sempre cheia de insetos, não importa quão alto eu suba. Sem contar o cheiro que me obrigo a aguentar. Simplesmente terrível. Pra piorar, hoje nem ela me fez conseguir chegar a tempo de vê-los entrarem na escola, o que é uma pena. Mesmo assim, sempre fico até a saída. Ela é a parte mais bonita mesmo.</p>
<p>O mais velho deles está sempre amarelo ouro; vivaz e radiante. Vi poucas almas tão brilhantes quanto a dele. Os demais variam tanto que chegam a ofuscar de vez em quando. Principalmente quando os professores entram bem coloridos. Aliás, isso é algo que percebi já faz algum tempo: quanto mais colorida a alma do professor que chega, mais coloridas são as almas dos alunos que saem.</p>
<p>Opa! Vento sul chegando! Já está quase na hora!</p>
<p>Espero.</p>
<p>Espero.</p>
<p>Espero&#8230;</p>
<p>Nada deles aparecerem. Será que hoje não tem aula? Mas está tudo aceso e já passou da hora! Espero mais um pouco&#8230;</p>
<p>Nada.</p>
<p>Não me aguento: vou até os fundos e pouso no bebedouro de porcelana — adoro pousar na porcelana, ela esfria a sola das minhas patas e faz cócegas de um jeito diferente —  de lá, consigo ver um bom pedaço da sala de aula deles.</p>
<p>Qual não é a minha surpresa ao encontrar um dos alunos adiante da sala, ocupando o lugar do professor! E é aquele de alma púrpura! Hoje os nuances de laranja nele estão ainda mais brilhantes do que de costume, uma bela combinação. Ele está gesticulando muito e não parece estar apenas apresentando um trabalho&#8230;</p>
<p>Que estranho&#8230;</p>
<p>Será que o aluno virou professor? Isso seria o máximo! Preciso ter certeza disso! Preciso descobrir! Obviamente, o melhor jeito de fazer isso seria ouvindo um pouco da voz de algum deles, afinal as vozes nunca mentem e eu sou muito bom com vozes! Talvez eu até conseguisse conversar com eles! Nossa! Isso sim seria fantástico! Aí eu saberia tudo! Mas como vou fazer isso? Como eu me aproximaria? Como convencê-los a falar comigo? E mesmo que conseguisse, sobre o que eu falaria? Futebol? Política? Religião?</p>
<p>O quê? Já acabou a aula? Não! Eu ainda preciso bolar um plano para falar com vocês! Calma, calma! Pense, pense rápido&#8230; Já sei! Eles costumam parar diante do portão para conversar um pouco, talvez ali eu possa usar o velho truque do desconhecido! Sempre funciona!</p>
<p>Dito e feito.</p>
<p>A maioria vai embora de cara, mas, como sempre, ficam uma meia dúzia deles batendo papo diante do portão branco. Agora me resta achar uma viva alma que me sirva de fetiche, e precisa ser rápido! Certo, procure, procure&#8230;</p>
<p>Lá na esquina! Vem vindo um cara de aura multicolorida e rodopiante! Hum&#8230; Pelas espirais nele, o coitado deve ter bebido tanto que nem vai se lembrar caso eu assuma o controle por alguns instantes.</p>
<p>Perfeito! É a minha chance!</p>
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		<title>Pietro v1.1</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Oct 2008 15:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Allansia]]></category>
		<category><![CDATA[Aquele que Dorme Sob as Areias]]></category>
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		<category><![CDATA[Tribo do Sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Deserto dos Crânios. Hoje completo meu primeiro cento nesse lugar — isso inevitavelmente me lembra que já faz mais de dois anos que matei meu irmão — e pela primeira vez desde então, paro para descansar e começar a registrar os resultados de minha busca. Em parte, esse deserto é igual a todos os outros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deserto dos Crânios. Hoje completo meu primeiro cento nesse lugar — isso inevitavelmente me lembra que já faz mais de dois anos que matei meu irmão — e pela primeira vez desde então, paro para descansar e começar a registrar os resultados de minha busca. Em parte, esse deserto é igual a todos os outros que atravessei: areia, calor e morte sempre à espreita, mas aqui, assim como em toda parte por onde vaguei nesse mundo estranho, o céu é rubro como num crepúsculo infinito. Segundo os beduínos nativos, há poucos anos o dia estranhamente nunca mais amanheceu. Eles chamam esse fenômeno de Escuridão Carmim.</p>
<p><span id="more-213"></span></p>
<p>Minha jornada começou quando surgiram rumores dizendo que o governo daqui — um império sem nome, de bandeira negra e sem símbolos — passou a vasculhar o deserto em busca de algum tipo de conhecimento mágico obscuro. Tirânicos, organizados e cruéis, eles possuem muito poder e expandem sua influência assustadoramente. Os califas da tribo sagrada se reuniram e, desconfiados que isso fosse um indício d’Aquele que Dorme Sob as Areias, alistaram voluntários para investigar.</p>
<p>Cem dias longos e aprendi muito pouco sobre esse mundo. Aqui, a minha afinidade sobrenatural com as tramas arcanas me castiga ainda mais. Preciso me controlar para que a energia mágica desse lugar não invada demais a minha alma e acabe me matando. Minha terra natal não é tão farta em magia, mas mesmo nela eu já precisava me esforçar ao lidar com qualquer tipo de feitiço. Aqui, é como se toda a magia do mundo estivesse transbordando! Toda vez que preparo um encantamento, sinto como se a essência primordial dessa terra castigada tentasse me usar como uma espécie de condutor ou válvula de escape — como se a própria magia quisesse fugir daqui! A cada mágica que executo, sinto que corro o risco de perder minha alma num refluxo arcano imprevisto. É uma sensação muito estranha, como se eu estivesse me equilibrando numa corda bamba que insiste em tentar sair debaixo dos meus pés.</p>
<p>Além da magia, também é muito difícil lidar com o povo daqui. Estranhamente, o medo das pessoas parece muito maior nestas paragens. Eles não disfarçam sua aversão a forasteiros e o toque de recolher soa cedo em praticamente todos os povoados que visitei. Os viajantes e nômades que surgiam no horizonte também se afastaram como se eu fosse um tipo de aberração. A ironia é que na minha terra natal fui incansavelmente perseguido por me julgarem associado aos demônios e aqui eles simplesmente fogem desesperados logo que avistam minha silhueta ao longe. Acredito que a crueldade desse império sem nome seja a fonte de tanto pavor. Há cadafalsos, forcas e jaulas com cadáveres definhados espalhadas nas cercanias de todas as estradas e povoados. O povo teme até mesmo a própria sombra e parece que tem seus motivos para isso.</p>
<p>Felizmente já tive alguns avanços importantes. Descobri que existem algumas pessoas que dedicam suas vidas a combater esse império sem nome. Eles formam uma milícia secreta, organizada e silenciosa. Permanecem escondidos, se preparando e aguardando a melhor hora de atacar. Demorei a encontrá-los e fui acolhido desconfiadamente dentro de um esconderijo afastado. Lá, pude descobrir que, embora estejam espalhados praticamente por todas essas terras, eles não são assim tão numerosos quanto eu imaginava. Arredios e espantadiços, só partilharam informações depois de um longo interrogatório onde, com meu prévio consentimento, usaram magias dolorosas para ler a minha mente. Por fim, me julgaram digno de confiança e hoje posso dizer que faço parte de suas fileiras.</p>
<p>Os líderes da resistência me contaram que a maior dificuldade agora, ironicamente, é a ausência do sol. A sombra, além de arruinar a agricultura e a pecuária, confunde os predadores — criaturas noturnas, em sua maioria, que ficam desorientados e caçam o tempo todo. Os seres do caos, que antes espreitavam durante à noite e fugiam para o subterrâneo diante da luz do sol, agora vagam livres, destruindo vilarejos, acabando com as colheitas e atacando os rebanhos. A motivação do povo se enfraquece e muito já se fala sobre pragas, maldições e sinais do fim dos tempos. O medo é o assassino da mente.</p>
<p>Como eu já desconfiava, os rebeldes confirmaram que o fenômeno de escurecimento não é natural. Ele foi provocado intencionalmente — de forma ainda desconhecida — e vai muito além de apenas nublar os céus; faz com que a magia desse lugar flua de forma diferente, sendo mais invasiva e traiçoeira. Obviamente, acredito que essa seja a causa do meu tormento arcano, mas não é de se estranhar que até a magia desse lugar esteja tentando escapar.</p>
<p>Penso que deve haver uma relação entre essa escuridão e algum tipo de alteração na composição do tecido entre os mundos. Caso minhas suspeitas se confirmem, é certo que elas poderão ser consideradas pistas claras da presença d’Aquele que Dorme Sob as Areias nesse lugar. Caso ele esteja aqui, é possível que essa escuridão faça parte de algum tipo de ritual para localizá-lo, se comunicar com ele ou até mesmo despertá-lo. Entretanto, ainda é cedo demais para afirmar qualquer coisa.</p>
<p>Continuo minha busca por esclarecimentos. Os rebeldes me falaram sobre as ruínas de uma civilização muito antiga no coração do deserto profundo e os símbolos entalhados nos cacos de porcelana que eles me mostraram eram muito parecidos com os da minha tribo, ainda que inteligíveis. Existem boatos sobre um ermitão que fez dessas ruínas seu exílio e talvez ele seja capaz de auxiliar em minha busca. Provavelmente, alcançarei as tais ruínas dentro do próximo cento, onde me sentarei para registrar meu progresso mais uma vez.</p>
<p style="text-align: right;">Diário de Pietro Raisengard, Escorte da Tribo do Sol.<br />
<small>Traduzido de um dialeto antigo da língua morta dos povos do deserto.</small></p>
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		<title>O Testemunho de Ishtar Treva Eterna (Isthar v 1.4)</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Jun 2008 17:57:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
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		<description><![CDATA[Não existe vida sem morte e este é o meu testemunho. A Morte, o maior e mais poderoso de todos os Senhores Negros do Caos, foi quem me deu vida. Colocou-me no mundo dos vivos para que eu matasse em seu nome e aumentasse o contingente do seu exército de condenados. Nasci com a centelha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Não existe vida sem morte e este é o meu testemunho.</em></p>
<p><span id="more-40"></span></p>
<p><em>A Morte, o maior e mais poderoso de todos os Senhores Negros do Caos, foi quem me deu vida. Colocou-me no mundo dos vivos para que eu matasse em seu nome e aumentasse o contingente do seu exército de condenados. Nasci com a centelha de poder desse Senhor do Caos dentro de mim e desde muito pequena sei que pertenço à ele e que meu destino na terra foi vontade e fruto de seu imensurável poder. Desde a derrota da Semente do Caos, na vastidão das Terras Ermas, muitas outras garotas como eu vieram ao mundo. Somos vida fruto da morte, nascidas para trazer morte aos frutos da vida.</em></p>
<p><em>O convívio com as crias da noite revela sua beleza. Agora eu as admiro e elas me respeitam como a filha da Morte que sou. Recebem-me com júbilo em suas criptas para ensinar-me suas artes e conceder-me suas carícias. Hoje eu reconheço o poder do Senhor do Nada e sei que preciso serví-lo, mas nem sempre foi assim.</em></p>
<p><em>Eu rejeitava os mortos. Entorpecida pela mortalidade, fui tola e tentei esconder-me entre os meus para evitar que o olhar gélido e irrefreável da Morte recaísse sobre mim. Evitar o inevitável? Negar o inegável? Dentre todas as outras, foi até mim que o Senhor do Nada se dirigiu e eu tive medo. Talvez tenha sido minha ingratidão ou esse meu apego à vida o que atraiu sua atenção, mas me apavorei com sua majestade e, quando ele chamou-me para o seu leito, virei o rosto e recusei sua dádiva. Como uma mortal, o poder de meu livre arbítrio fez com que meu mestre fosse incapaz de levar-me contra a minha vontade, mas não antes de lançar sobre mim sua chama de revelação.</em></p>
<p><em>Nada mais me alimentava. Nenhum cozido, verdura ou fruta matava minha fome. Julguei-me amaldiçoada, vítima de uma vingança injustificada. Meus olhos nublados confundiram a bênção das trevas com um flagelo caprichoso. Fui uma ingrata: lutava, sofria e, inevitavelmente, me rendia à inanição. A sede era insaciável e a agonia era indescritível. Aos poucos, desejei a morte. Cega, incauta e burra, rastejei blasfemando contra desígnios completamente alheios ao meu entendimento limitado. Até que descobri qual carne mataria minha fome.</em></p>
<p><em>Nua, largada na sarjeta suja de uma cidade de ladrões, minha alma definhou conservando um vigor inexplicável no corpo. Pouco a pouco, a fome foi despertando a besta dentro de mim — insana, devassa e colérica. Quando os missionários da deusa do sol se aproximaram para socorrer-me, ouvi de longe o bater de seus corações e enxerguei o sangue pulsando nos braços que me acolheram. Foi na carne daqueles sacerdotes que encontrei meu destino.</em></p>
<p><em>Despida de vida e impedida de morrer, sacio com vidas essa sede de morte. Somente essa fruta negra e amarga, com seus caroços ásperos e sua polpa purulenta, acalma a besta que dorme intranqüila dentro do meu corpo. Preciso cumprir meu papel ao lado da Morte para me livrar desse fardo. Preciso reconquistar o meu Senhor; mostrar-me digna de ser sua consorte mais uma vez. Fazê-lo desejar-me como ele desejou antes. Entregar meu corpo e reaver minha alma.</em></p>
<p><em>Não há senhores sem servos ou bênçãos sem maldições, mas, antes de tudo, não há vida sem morte. Este é o meu testemunho que agora você carregará consigo. Sinta-se orgulhoso de si, mortal: cedo ou tarde, quer você queira, quer não, sua carne e seu sangue alimentarão minha lenda. A lenda do meu Senhor do Caos: glacial, afiado e implacável.</em></p>
<p style="text-align: center;"><a title="O Testemunho de Ishtar" href="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2008/06/trabalho_cobbi.pdf" target="_blank"><img class="alignnone size-full wp-image-41" title="Versão Ilustrada (arte de Johnny Menezes)" src="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2008/06/ico_livro.jpg" alt="Ícone de Caderno" width="100" height="100" /></a><br />
<small>Versão Ilustrada (arte de <a title="Blog do Johnny" href="http://mundorpgista.wordpress.com/" target="_blank">Johnny Menezes</a>)</small></p>
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		<title>Azrael (v 1.1)</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jun 2008 06:37:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado. — Êxodo 23:20 Gosto férreo de sangue e música ensurdecedora. A cabeça dolorida lateja com as pancadas compassadas e frenéticas de um sintetizador onipresente. Sente seus calcanhares arrastando no chão e, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Eis que eu envio um anjo diante de ti,<br />
para que te guarde pelo caminho,<br />
e te leve ao lugar que te tenho preparado.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;">— Êxodo 23:20</p>
<p><span id="more-33"></span></p>
<p>Gosto férreo de sangue e música ensurdecedora. A cabeça dolorida lateja com as pancadas compassadas e frenéticas de um sintetizador onipresente. Sente seus calcanhares arrastando no chão e, pouco a pouco, ouve a música ficar abafada e distante. Olhos inchados. Força a abrí-los e acompanha o rastro de gotas escarlates em pingos pelo chão de sombras que escorre abaixo de si. Um ranger de porta sendo aberta; fundos de espelunca, pelo barulho. Pisca e dorme.</p>
<p>Mandíbula contra o chão de um beco sujo. Volta à tona. Cheiro adocicado; lixo podre e esgoto. <em>Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?</em> Contorce as fraturas dolorosamente na direção da voz: uma silhueta caminha contra a luz parda de um poste velho. Jeans, jaqueta e calça. Pés descalços na direção do seu rosto. Um chute firme entre o nariz e a sobrancelha explode em vertigem seu septo e um supercílio. Negrume e dor. Visco e sangue. <em>E foi ele a seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui; quem és tu, meu filho?</em> Cuidadosamente, dedos se entrelaçam nos cabelos da nuca e lhe socam a cabeça três vezes contra a calçada úmida: testa, queixo e nariz. Pretidão e torpor.</p>
<p>O barulho da roupa sendo rasgada aos trancos. <em>Para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti.</em> Não havia céu nem chão. Luz, nem sombra. O ar assovia pelos gomos de um pedaço de corrente. Zunido lancinante. Zunido entorpecente. Dormência. Logo vem um chute forte no estômago que traz um gosto ácido de mostarda e pimenta ao nariz. Engasga com o jato expelido pela boca. Tosse e recebe outra pancada pesada no rosto; joelho ou cotovelo. Dentes quentes e moles. Sangue e vômito. Retorce-se. Enquanto junta forças para pigarrear, sente o afagar nos seus cabelos úmidos, tirando-os carinhosamente da face. <em>Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.</em> Afasta-se.</p>
<p>Termina de quebrar um pulso tentando acuar-se e grita ao estralo seco. Soluça e ouve latas caindo. Pés saem pelas poças do beco. Por instantes, os borrões adiante ficam estranhamente nítidos. Jaqueta no chão e costas nuas. Um majestoso par de asas de penas cândidas. <em>Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.</em></p>
<p>E voa para nunca mais voltar.</p>
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		<title>&#8220;Ora essa!&#8221;</title>
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		<pubDate>Fri, 30 May 2008 04:49:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA["Era uma vez..."]]></category>
		<category><![CDATA[Esquilo Castanho]]></category>
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		<description><![CDATA[Que raio de esquilo eu seria se não conseguisse encontrar uma fada dentro do meu próprio bosque? — Esquilo Castanho]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Que raio de esquilo eu seria se não conseguisse encontrar uma fada dentro do meu próprio bosque?</p></blockquote>
<p style="text-align: right;">— Esquilo Castanho</p>
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		<title>Andrei (v 1.3)</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 21:51:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA[André Felipe Xavier]]></category>
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		<description><![CDATA[— Não dá pra rezar mais rápido? — apressou Andrei, gritando. Depois cerrou os olhos, emparelhou as pistolas e disparou ambas de uma só vez. Desenhou duas linhas precisas no meio da fumaça dos tiros e da névoa da noite. Atingiu certeira e ferozmente o grupo de criaturas mais próximas que cambaleavam na sua direção. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— Não dá pra rezar mais rápido? — apressou Andrei, gritando.</p>
<p>Depois cerrou os olhos, emparelhou as pistolas e disparou ambas de uma só vez. Desenhou duas linhas precisas no meio da fumaça dos tiros e da névoa da noite. Atingiu certeira e ferozmente o grupo de criaturas mais próximas que cambaleavam na sua direção. Antes que ar se enchesse de pólvora e eco, os primeiros alvos foram projetados sobre os demais com grandes pedaços de carne arrancados do corpo. Lentos e desajeitados, insistiam em se reerguer incansáveis, mesmo depois de serem derrubados em pedaços contra o chão.</p>
<p><span id="more-23"></span></p>
<p>Andrei correu os olhos em volta e sentiu o coração disparar: numa lentidão mórbida e irrefreável, uma turba de zumbis já formava uma ciranda macabra ao redor. Todos deformados pela fome insaciável e pela maldição que pairava nesse lugar. O atirador franziu o cenho e voltou a se proteger atrás da carroça tombada que usava como trincheira, alertando:</p>
<p>— Frei Silas! Precisamos de qualquer bênção divina que o senhor possa conseguir agora!</p>
<p>Além do atirador, outras duas pessoas se escondiam no abrigo improvisado: um garotinho ruivo e sardento — descalço, sujo de fuligem e debaixo de uma boina bem maior que a própria cabeça — e um velho senhor grisalho, usando uma túnica surrada e sandálias de amarrar. O garoto se mantinha ocupado, terminando de recarregar com presteza outro par de pistolas. O velho estava de cabeça baixa, se apoiando no longo cajado e num dos joelhos contra o chão.</p>
<p>Concentrado, murmurava uma prece antiga e pressionava contra os lábios um amuleto preso num colar de contas.<br />
Ajudando o garoto a preparar um novo disparo, Andrei olhava ansioso para o sacerdote, esperando uma notícia qualquer. Entre um verso e outro da oração, sem erguer o rosto e mantendo a concentração, veio uma justificativa serena, sussurrada num tom grave e rouco:</p>
<p>— Calma meu caro, não é assim que as coisas funcionam lá em cima&#8230;</p>
<p>Andrei bufou preocupado e espiou pela beirada do abrigo. Mais e mais monstros se desenterravam pesadamente dos escombros do vilarejo adiante. Brotavam das ruínas num ritmo que parecia não ter fim; a procissão de cadáveres se arrastava emitindo lamentos de uma aparente indiferença sonolenta, mas lutando arduamente para atravessar os destroços na direção deles. A proximidade constante e crescente dos gemidos despertava angústia, indicando que o cerco final era eminente.</p>
<p>— Suas pistolas, senhor — chamou o assistente apressado. Andrei estendeu as mãos adiante, com as palmas calejadas pra cima, e Gino encaixou as armas já prontas nos dedos de seu mestre.</p>
<p>Quase num reflexo, Andrei agradeceu ao menino e se encostou na carroça, preparado para levantar. Fez uma prece curta no seu idioma natal, pedindo que os estilhaços dos disparos não atingissem o garoto, respirou fundo e se levantou. Escorou o peito na carroça, esticou os dois braços à frente e os zumbis desalmados continuaram temerários, caminhando na direção do abrigo e ignorando completamente a ameaça evidente. Andrei esperou os cadáveres se enfileirarem na alça de mira das pistolas e sentiu o ódio queimando dentro de si. Cerrou os olhos de novo e disparou duas vezes, uma de cada vez:</p>
<p>— Uma pela Mirna&#8230; — murmurou — Outra pelo meu filho que nasceria&#8230;</p>
<p>Acertou em cheio; peito de um, cabeça de outro. Pedaços de carne pútrida saltaram dos buracos abertos nos cadáveres ambulantes. Grandes nacos de pele, músculos e lascas ósseas ficaram dependurados. Andrei sentiu o coração vibrar de vingança dentro do peito e mal pode conter um palavrão sussurrado.</p>
<p>Quando voltou a se recostar dentro do abrigo, tinha os olhos marejados. Esfregou-os com as costas das mãos, esticando borrões de cinza pelo rosto. Sentou-se nos calcanhares e esticou os braços sobre os joelhos dobrados, entregando as pistolas descarregadas ao assistente. Gino as apanhou com presteza e ficou brevemente paralisado ao notar aquela expressão de fúria contida e desalento em Andrei.</p>
<p>Naquele instante, o menino não soube se os borrões foram fruto do suor que incomodara a mira de seu impetuoso mestre ou se houveram mesmo lágrimas no meio de toda a coragem, rebeldia e impulsividade do seu mestre.<br />
De olhos arregalados, só retomou suas tarefas quando Andrei reassumiu a firmeza de sempre: apanhou uma das bombas de pólvora e procurou o isqueiro de sílex para acender o pavio. Enquanto isso, a prece do frei finalmente terminou e mestre e aprendiz sentiram uma energia motivadora e uma tranqüilidade fraternal em seus corações. Andrei desfez a careta de raiva e respirou agradecido:</p>
<p>— Obrigado, Frei. Eu estava mesmo precisando&#8230;</p>
<p>Contando até três, lançou a bomba acesa num arco amplo e gritou para todos taparem os ouvidos. Calculou seu arremesso com perfeição; a explosão aconteceu perturbadoramente perto, bem no meio do grupo de zumbis mais próximos.</p>
<p>Gino foi o primeiro a destapar os ouvidos, com pressa de retomar seu trabalho. Desfez a careta de susto pelo barulho só para torcer de novo o nariz por causa do fedor. O cheiro de carne podre e queimada tomou conta. Agora o menino já tinha as mãos ocupadas e como não podia abanar o rosto, se forçou a ignorar o mau cheiro e falar rápido, destacando seu sotaque nasalado:</p>
<p>— Pistolas prontas, <em>señior</em>!</p>
<p>Andrei reabriu as mãos e num instante tinha suas armas de volta impecáveis; prontas e carregadas. Só depois Gino tossiu de lado, fazendo a boina folgada escorregar e recair de lado sobre sua testa.</p>
<p>De pistolas em punho, Andrei olhou nos olhos do garoto e pensou que dentro de alguns anos Gino se tornaria um talentoso atirador. O menino só tinha aparecido recentemente, atraído pela reputação de Andrei como especialista na arte do tiro e na química da pólvora. Assim como ele, o garoto perdeu sua família vítima de monstruosidades noturnas e queria vingança. Por hora, ele mantinha as armas de Andrei perfeitamente limpas e preparadas enquanto equilibrava sobre a cabeça aquela boina velha de que tanto gostava.</p>
<p>— Mestre, tem mais deles vindo por ali! — apontou Gino, assustado — Eles estão por toda parte!</p>
<p>— <em>Eles </em>não estão mais aqui — interrompeu o sacerdote — não passam de um monte de cadáveres amaldiçoados. Nosso dever é destruí-los e lhes conceder o descanso eterno.</p>
<p>Surpreendentemente, o sacerdote não apresentava o mínimo tremor de inquietação.</p>
<p>— Mantenha-os à distância, Frei — pediu Andrei — lutaremos contra eles até que não sejam mais nada além de cinzas!<br />
O frei se apoiou no cajado e se pôs de pé. Deu um passo e protegeu melhor o garoto e o arsenal de pólvora. Com o colar do amuleto entrelaçado numa das mãos, levantou-se e esbravejou:</p>
<p>— Mira firme e fé na aurora, Andrei! E você, garoto Gino — inclinando a ponta curva do cajado de madeira na direção do moleque — continue recarregando essas armas! Toda a perícia do seu mestre não nos serve de nada sem a sua habilidade e dedicação.</p>
<p>Silas era um sacerdote veterano e competente quando o assunto eram batalhas contra os mortos-vivos. Ele reclinou levemente o queixo em contemplação e cerrou o punho em torno do seu amuleto sagrado — uma estrela dourada sobre um disco de madeira escura. Esticou-o na direção dos zumbis e, numa fleuma implacável, aprumou o tronco numa pose majestosa. Depois, rugiu contra as criaturas, com uma certeza esmagadora na voz:</p>
<p>— Em nome do Senhor da Manhã, afastem-se e não nos importunem mais!</p>
<p>Franziu o cenho enquanto lutava para impor a força de sua fé contra a maldição dos zumbis. Não conseguiu evitar o frêmito de epifania quando sentiu sua prece alcançar a consagração. Uma onda de poder fluiu através do seu corpo e brilhou fortíssima como um pequeno sol através do amuleto sagrado. Andrei e Gino mal tiverem tempo de recobrir os olhos antes que a linha mais próxima de mortos cambaleantes fosse arremessada violentamente para trás pela energia brilhante, atropelando as demais fileiras e obrigando a ala dianteira da hoste de monstros a recuar.</p>
<p>Piscando os olhos, Gino festejou em brado e riso. Andrei sorriu também. O frei era a prova viva de qual era o lado pelo qual eles estavam lutando:</p>
<p>— Ótimo, frei. Isso me dará mais tempo para atirar. Basta que você os mantenha onde estão e nós acabaremos com todos eles, um por um.</p>
<p>Depois, saiu de lado detrás da carroça apanhando uma espingarda de mão que descansava recostada no arsenal. Era pouco maior e mais robusta que as pistolas, e Andrei engatilhou-a com toda agilidade natural de um verdadeiro mestre — bastou um giro do seu pulso e, num estalo metálico, sentiu os cartuchos encaixando na culatra. Completou a manobra de recarga apoiando o cano sobre o outro antebraço. Separou as pernas em busca de apoio e fez mira apoiando a base do cabo diante do ombro. Atirou.</p>
<p>Gino até se encolheu diante da explosão que seguiu. Caíram três zumbis de uma só vez. Com outro giro habilidoso, Andrei rearmou a espingarda e disparou mais uma vez; a detonação praticamente desintegrou outros dois zumbis.</p>
<p>Entrou de volta na carroça com os ouvidos zunindo. Protegeu-se agachado na posição inicial e o garoto já lhe esticava novamente o primeiro par de pistolas, limpas e recarregadas. Levantou rápido e descarregou as duas de pronto. Ao retornar, recebeu automaticamente um segundo par de armas totalmente preparadas. Sorriu satisfeito para o garoto, que retribuiu meio tímido antes de mergulhar sua atenção na poderosa cartucheira vazia e na caixa de munição. Agora já havia algum espaço para raciocinar novamente.</p>
<p>Num misto de orgulho, afronta e confiança, Andrei girou as pistolas nos indicadores enquanto traçava mentalmente seus próximos disparos. Terminou o giro intercalando disparos sem errar. Ainda em pé, trocou armas com o garoto outra vez.</p>
<p>O frei já havia se ajoelhado novamente em oração. Rezava em silêncio para que a mira de Andrei não falhasse e a munição e o fôlego de seus amigos durasse o bastante para que todos esses fantoches malditos fossem abatidos.</p>
<p>A aurora estava distante. Essa noite seria longa e estava apenas começando.</p>
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		<title>Dorien (v 1.6)</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Apr 2008 14:57:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Fantástica]]></category>
		<category><![CDATA[Dorien]]></category>
		<category><![CDATA[Kobe]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo Médio]]></category>
		<category><![CDATA[Sued Ferreira]]></category>
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		<description><![CDATA[Dorien acordou. Já era noite. Sentira falta do amigo estrangeiro. Ele ficou desaparecido por muito tempo e agora ela finalmente o reencontrava. Era estranho, pois esteve procurando por ele durante tanto tempo e agora, de repente, acordava com o amigo sentado diante das brasas do mesmo acampamento, como se ele nunca tivesse saído de lá. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dorien acordou. Já era noite.</p>
<p>Sentira falta do amigo estrangeiro. Ele ficou desaparecido por muito tempo e agora ela finalmente o reencontrava. Era estranho, pois esteve procurando por ele durante tanto tempo e agora, de repente, acordava com o amigo sentado diante das brasas do mesmo acampamento, como se ele nunca tivesse saído de lá.</p>
<p><span id="more-21"></span></p>
<p>Durante instantes, Dorien contemplou as matizes do fogo tingindo um rosto absorto. Seu jovem amigo parecia estar à deriva num mar de memórias. Com a voz ainda meio rouca de sono, ela interrompeu o silêncio intranqüilo das estepes, alertando-o que já havia despertado:</p>
<p>— Temos muito para conversar, estrangeiro.</p>
<p>Ele conteve quase todo o susto e olhou por cima do ombro na direção dela. Levantou uma sobrancelha se fingindo de desconfiado e sorriu. Ao vê-la acordada, se espreguiçando debaixo das cobertas de pele de carneiro, retomou o ar divertido de sempre:</p>
<p>— Ouvi muito sobre suas batalhas, moça&#8230; — e lá estava o costumeiro tom de esfinge.</p>
<p>Virou de costas para a fogueira, na direção dela. Aos poucos, Dorien se colocou sentada. Esticou os ombros suavemente para depois estalar o pescoço tentando relaxar. Enquanto amarrava os cabelos, deu uma boa olhada em volta: o acampamento estava escondido na reentrância de um rochedo grande e solitário que margeava a pradaria. Parecia seguro e confortável.<br />
Terminou sua vigília com os olhos sobre o amigo. Ele estava distraído, usando sua adaga de combate de um jeito que ela achou engraçado, tentando tirar algo de dentro das brasas sem queimar as mãos. Dorien esboçou um sorriso e refletiu por alguns instantes.</p>
<p>O aroma refrescante da terra molhada se misturava com o acre das mochilas mofadas, ainda úmidas da chuva. Vez por outra, a brisa levantava o cheiro da madeira em brasa e trazia recordações de outras viagens que eles fizeram juntos. E nem parecia que já fazia tanto tempo assim.</p>
<p>Quando se deu conta que o amigo estrangeiro retribuía o olhar, Dorien, sacudiu a cabeça e sorriu de volta, tentando retomar o ar de seriedade:</p>
<p>— Encontrei um caminho na minha vida. Vou ao encontro de mim mesma.</p>
<p>Uma certeza perturbada se arrastava nas palavras da jovem amazona. Uma névoa de amargura, embaraço e resignação lhe apagava todo brilho dos olhos.</p>
<p>— As vidas costumam ser cheias de caminhos, garota guerreira — filosofou com deboche para descontrair — e existem muitos deles pra chegar no mesmo lugar.</p>
<p>Ela concordou com um sorriso meigo. Baixou a cabeça olhando para as próprias mãos, envolvidas com tiras de couro e descansadas no colo, sobre as cobertas macias. Sem levantar os olhos, concluiu:</p>
<p>— Mas nem todos os caminhos se mostram para nós de uma só vez, meu amigo estrangeiro. É preciso descobrir aos poucos e&#8230;</p>
<p>— &#8230;e essa é a graça da coisa toda! — ele completou de pronto, atraindo os olhos dela de volta e sorrindo para dissipar a seriedade tensa que a filosofia despertou.</p>
<p>Ao rirem juntos, reconheceram um tom de infância nas gargalhadas um do outro. Não era algo declarado, mas ambos sabiam que estavam satisfeitos por se encontrarem de novo. Dorien manteve o sorriso, se pôs de pé e espreguiçou. Dobrou as cobertas com cuidado, sentando confortavelmente sobre elas. Enquanto isso, o estrangeiro esticou o corpo na direção das brasas sem se levantar. Com cuidado, usou a proteção na palma das luvas sem dedos para apanhar um pacote chamuscado, embrulhado com folhas largas e fechado com um laço de cordão. Como se estivesse divagando, Dorien recomeçou:</p>
<p>— Eu tive um sonho&#8230; Na verdade eu <em>acho</em> que foi um sonho. Me fez pensar sobre a minha vida e me inspirou essa nova busca.</p>
<p>Ela assistia enquanto o amigo manuseava o embrulho com entusiasmo. Assim que ele desfez o nó do cordão, antes mesmo da primeira desdobra no pacote, um cheiro saboroso de temperos exóticos tomou conta do pequeno acampamento. Dorien se ajeitou sobre as cobertas e completou:</p>
<p>— Por causa disso, queria te pedir um favor.</p>
<p>Nem precisou desviar o olhar para saber que ela sorria tímida; respondeu concentrado em tirar a comida cheirosa de dentro do pacote sem queimar as pontas dos dedos.</p>
<p>— Certo. Cá estou eu, todo ouvidos&#8230;</p>
<p>— Eu tentei entender esse sonho, mas definitivamente não nasci pra isso. Como sei que você já viajou um bocado, imaginei que talvez pudesse me ajudar a desvendar um pouco mais sobre ele, isto é, se eu te contasse aquilo de que me lembro a respeito.</p>
<p>Os olhos curiosos abandonaram o pacote semi aberto e fumegante por alguns instantes, se voltando na direção dela:<br />
— Claro que posso! Mas você não se incomoda se eu preparar alguma coisa para mastigarmos enquanto te ouço, certo? — sorriu, apontando o pacote.</p>
<p>Ela brincou inclinando o pescoço na direção do embrulho como se o farejasse. Depois sorriu e anuiu:<br />
— Nem um pouco. Posso começar?</p>
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