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	<title>Aprendiz de Escritor &#187; Ficção Poética</title>
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	<description>Aqui, eu posto os meus exercícios — trechos da ficção que eu tanto gosto de escrever — e os meus ensaios, crônicas, artigos, dicas de eventos, de livros, de filmes e tudo o que eu acho pertinente a esse mundo no qual eu estou entrando agora: o de escritor.</description>
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		<title>Luto ao Mago Matadeus</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 14:30:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Poética]]></category>
		<category><![CDATA[A Caverna]]></category>
		<category><![CDATA[A História do Cerco Sobre Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[A Jangada de Pedra]]></category>
		<category><![CDATA[A Maior Flor do Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[A Noite]]></category>
		<category><![CDATA[A Viagem do Elefante]]></category>
		<category><![CDATA[As Intermitências da Morte]]></category>
		<category><![CDATA[Deste Mundo e do Outro]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaio Sobre a Cegueira]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaio Sobre a Lucidez]]></category>
		<category><![CDATA[Homem Duplicado]]></category>
		<category><![CDATA[In Nomine Dio]]></category>
		<category><![CDATA[José Saramago]]></category>
		<category><![CDATA[O Conto da Ilha Desconhecida]]></category>
		<category><![CDATA[O Dissoluto Absolvido]]></category>
		<category><![CDATA[O Evangelho Segundo Jesus Cristo]]></category>
		<category><![CDATA[O que farei com Esse Livro?]]></category>
		<category><![CDATA[Objecto Quase]]></category>
		<category><![CDATA[Pequenas Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Poemas Possíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Terra do Pecado]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem a Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Será que eu é nunca tinha vivido a morte de um Mago Matadeus? Será que nunca estive vivo durante, ou atento a isso antes? Será que é sempre assim, aos sussurros? Será que essas mortes não liberam faíscas de júbilo divino — provavelmente alegria de ver-se livres desse temido algoz —  que dilaceram jangadas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Será que eu é nunca tinha vivido a morte de um Mago Matadeus? Será que nunca estive vivo durante, ou atento a isso antes?</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="Será eu, mago?" src="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2010/06/arck-300x226.jpg" alt="Será eu, mago?" width="300" height="226" /></p>
<p><span id="more-1451"></span>Será que é sempre assim, aos sussurros? Será que essas mortes não liberam faíscas de júbilo divino — <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Provavelmente_Alegria">provavelmente alegria</a> de ver-se livres desse temido algoz —  que dilaceram <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Jangada_de_Pedra">jangadas de pedra</a>, esfacelam a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_do_Pecado">terra do pecado</a> e provocam genocídios e catástrofes? Será que estive <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_Sobre_a_Cegueira">ensaiando uma cegueira</a> a isso durante todo esse tempo?</p>
<p>Será que nas <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Intermit%C3%AAncias_da_Morte">intermitências da morte</a> de um Matadeus não ocorrem eventos alegóricos, dignos da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Cerco_de_Lisboa">história do cerco sobre Lisboa</a> ou dos versos mais catárticos de um épico grego? Será que não é como o despertar de um vulcão que destrói cidades ou um furacão que ganha nome e fica marcado na história <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Deste_Mundo_e_do_Outro">deste mundo e do outro</a>? Ou até do universo. Será que a morte de um Mago Matadeus não passa disso, uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Caverna">caverna</a>?</p>
<p>Será esse o silêncio-sussurro de uma das agonias do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Evangelho_Segundo_Jesus_Cristo">evangelho segundo Jesus Cristo</a>? Será real essa neblina de morte que paira sobre <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_(livro)">a noite</a> ou o silêncio da nobreza na <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Viagem_do_Elefante">viagem dos elefantes</a>?</p>
<p>Será essa a vingança dos tantos deuses que o mago vitimou?</p>
<p>Será, Matadeus, que todos esse nomes, toda essa magia, vem de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Poemas_Poss%C3%ADveis">poemas possíveis</a>? Pergunto, pois você, Matadeus, foi esperto e, no <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Ano_de_1993">ano de 1993</a>, cunhou tábulas que serão um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto_Quase">objecto quase</a>, um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_Sobre_a_Lucidez">ensaio sobre a lucidez</a>. Você cerziu-se numa das feridas da humanidade para que ela não possa jamais se livrar de você sem abrir novamente a pústula.</p>
<p>Será, Matadeus, que é você quem se tornou o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Don_Giovanni_ou_O_Dissoluto_Absolvido">dissoluto absolvido</a> das <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Pequenas_Mem%C3%B3rias">pequenas memórias</a> de si mesmo? Será que me enganou esse tempo todo e compôs <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Conto_da_Ilha_Desconhecida">o conto da ilha desconhecida</a> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/In_Nomine_Dei">em nome de Deus</a>? Duvido, mas rezo pra que tenha sido.</p>
<p>Dentre tanto mestres, tantos magos, será que você, Matadeus, era o último dos que restavam entre nós? Será que você, Matadeus, vai responder <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Que_Farei_com_Este_Livro%3F">o que faremos com esses livros todos</a>?</p>
<p>Diante de tanto torpor, tudo que eu queria ser capaz é de amplificar sua ausência. Ou parte dela. Ou de minimizá-la eu mesmo, como Aprendiz de Matadeus. Quem sabe numa <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Viagem_a_Portugal">viagem a portugal</a>, para decorar seu túmulo abaixo da oliveira no quintal com <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Maior_Flor_do_Mundo">a maior flor do mundo</a>. Será que serei capaz, Matadeus? Será que me deixaste capaz de fazer-lhe <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Duplicado">homem duplicado</a>?</p>
<p>Será eu, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago">Mago</a>?</p>
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		<title>Quem eu quero?</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Apr 2010 20:24:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Poética]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu quero uma rival. É isso que eu quero. A mulher perfeita pra mim tem que saber se ajoelhar diante da arte e chutar o saco de gente abusada que não sabe onde tem que parar. Ela pode ser preta ou branca, mas tem que ser divertida. E tem que saber se divertir com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu quero uma rival.<br />
É isso que eu quero.<br />
A mulher perfeita pra mim tem que saber se ajoelhar diante da arte<br />
e chutar o saco de gente abusada que não sabe onde tem que parar.<br />
Ela pode ser preta ou branca, mas tem que ser divertida.<br />
E tem que saber se divertir com o seu corpo.<br />
Tem que saber me divertir com o seu corpo.<br />
Tem que saber se divertir com o meu corpo,<br />
e tem que saber se divertir na vida, sem desrespeitar ninguém.<br />
Respeito<br />
O fim das contas é isso.</p>
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		<title>O poço, o deserto e o labirinto</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 02:12:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Poética]]></category>

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		<description><![CDATA[Tudo que Ela conseguia fazer era chorar Amor. Era como se estivesse presa numa teia de mágoa e desespero cerzida pelo Passado. Tão presa, que nada podia convencê-la de si mesma. Nada era capaz de mostrá-la que tudo já havia passado, mas que ela ainda estava ali. Primeiro, despencou no Poço Escuro da Agonia. Contorceu-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo que Ela conseguia fazer era chorar Amor. Era como se estivesse presa numa teia de mágoa e desespero cerzida pelo Passado. Tão presa, que nada podia convencê-la de si mesma. Nada era capaz de mostrá-la que tudo já havia passado, mas que ela ainda estava ali.</p>
<p>Primeiro, despencou no Poço Escuro da Agonia. Contorceu-se no ar a quilômetros por hora, desesperada pela queda sem fim e pela obviedade de um fundo seco e maciço que aguardava obscuro nas sombras. Especial como só ela, demorou pouco a perceber que o fundo não chegaria nunca e que esse é o castigo desse poço — ele é infinito.</p>
<p><span id="more-1328"></span>Como acontece a todos que o decifram, o poço acabou de súbito para ela. Surgiu então a luz de esperança no fundo que, numa lufada, se transformou na cegueira de um lampejo. Aterrissou fofa e áspera numa das mais altas dunas dos Desertos da Culpa. Outra armadilha do Destino, esse local é a prisão perpétua onde inúmeras almas perdem eternidades. Ela não. Observou as pessoas pontilhadas em rastros pelo horizonte, cumpriu alguns desenhos mentais, fez as contas e logo entendeu que a culpa cega as pessoas umas para as outras.</p>
<p>O Destino cerrou os dentes e não se deu por vencido. Arrastou-a então para a prova final: o Labirinto da Memória. São poucos os que chegam tão longe&#8230; Seria ela capaz de lidar com seus pensamentos? Enfrentar o pior dos adversários? Ela não só foi atraída pelos altos portais de bronze da entrada — castigados pelo Passado que insiste em forçá-los — como achou curiosa a maneira como as vinhas dos pensamentos se entrelaçavam, criando caminhos que, embora geométricos, se transformavam em corredores e alcovas feitos de pura confusão.</p>
<p>Deixou-se vagar por alguns instantes. Observou o céu sumir acima de uma tempestade que molhou-a e ergueu uma neblina morna e estranha. Ao topar com a primeira clareira do dédalo, se surpreendeu reassistindo à sua memória mais antiga como se estivesse numa sala de teatro: ainda muito pequena, ela mesma tentava pedalar um triciclo diante de si. Ela, a pequena, olhou para si mesma, a atual, e diante da impotência de ambas, abriu o berreiro. Logo o pai se materializou para ajudá-la e tudo sumiu como fumaça. Virou neblina, ou melhor:  parte da neblina. E lá estava ela, sozinha consigo mesma novamente.</p>
<p>Calmamente, sentou-se de pernas cruzadas bem no centro dessa clareira, em pose de índia e molhada até os ossos. Castigada pelo temporal do labirinto, sentiu o cabelo escorrer-lhe na face e lembrou da forma como Ele, e só Ele, fez questão de, mesmo debaixo de uma tempestade torrencial, tirá-los da face dela com um afago antes de dar-lhe o beijo para  finalizar o banho de chuva. Fechou os olhos e tudo lhe foi tão vívido que sentiu a textura dos lábios e o cheiro da pele dele.</p>
<p>Abriu os olhos e testemunhou a neblina dissipando o labirinto. Sozinha em si mesma, sentada de pernas cruzadas em sua própria consciência, tocou os lábios como se pudesse tatear a memória recém resgatada. A tempestade virou chuva e Ela então se ergueu. Tinha encontrado a chave de si mesma e do Universo. Não haveria porta que pudesse impedi-la a partir de então. Tudo que precisava saber era onde diabos ela o tinha escondido dentro de si mesma.</p>
<table align="center" border="0">
<tr>
<td align="center"><img class="alignnone size-full wp-image-1330" title="under_the_sun_byDaveMcKean" src="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2009/11/under_the_sun_byDaveMcKean.jpg" alt="under_the_sun_byDaveMcKean" width="352" height="342" /></td>
</tr>
<tr>
<td align="center"><small><a href="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2009/11/under_the_sun_byDaveMcKean.jpg">&#8220;Under the Sun&#8221;</a> por <a href="http://www.mckean-art.co.uk/">Dave McKean</a></small></td>
</tr>
</table>
]]></content:encoded>
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		<title>Voltando a ficcionar por aqui&#8230;</title>
		<link>http://aprendizdeescritor.com.br/voltando-a-ficcionar-por-aqui/</link>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 16:05:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Cobbi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Poética]]></category>
		<category><![CDATA[O Domador de Furacões]]></category>

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		<description><![CDATA[É galera , eu sei que faz um tempão que eu não posto nada do que eu tenho escrito por aqui. Por escrito, digo os textos mesmo, as minhas ficções como a Dorien e o Andrei, ou mesmo a Tate, aquela safada&#8230; Até comentei isso com vocês por aqui, mas a minha impressão é como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É galera , eu sei que faz um tempão que eu não posto nada do que eu tenho escrito por aqui. Por escrito, digo os textos mesmo, as minhas ficções como a <a href="http://aprendizdeescritor.com.br/dorien16/">Dorien</a> e o <a href="http://aprendizdeescritor.com.br/andrei13/">Andrei</a>, ou mesmo a <a href="http://aprendizdeescritor.com.br/biquini-branco-v-10/">Tate</a>, aquela safada&#8230; Até comentei isso com vocês <a href="http://aprendizdeescritor.com.br/pegando-leve-e-escrevendo-mais/">por aqui</a>, mas a minha impressão é como se, de repente o foco do blog tivesse caído numa coisa jornalística e, por algum motivo bizarro, eu acabasse sentindo que as minhas ficções &#8220;não se encaixam&#8221; mais por aqui.</p>
<p>Ontem conversei com um amigo que também é blogueiro. Ele me convenceu só tem um jeito de mudar isso, aliás, tem vários, mas precisa começar. Sobre isso, eu já tinha tomado outras broncas antes (de gente bem grande no meio editorial, aliás), mas acho que ele conseguiu me mostrar como fazer a coisa andar mesmo  de um jeito que me agrada.</p>
<p>Começando de leve, vamos postar uma ficçãozinha que eu escrevi num exercício pra pós. É um texto longo para o padrão do blog  (tem mais de 8.300 toques), totalmente inadequado para ler na tela do computador, mas que é uma tentativa de conto pensada pra ser desse tamanho mesmo, mas impresso. Tomei algumas liberdades com as mesóclises e ênclises, mas a idéia é falar de um tema com sutileza, sem tocar diretamente nele. Vamos ver se vocês adivinham pelos comentários qual foi o tema sorteado pra mim?</p>
<p><span id="more-1316"></span></p>
<h3>O Domador de Furacões</h3>
<p>Era um ciclone com nada além de desordem na cabeça, corpo, alma e coração. Como pipa solta em tempestade, girava entre pensamentos, atitudes, escolhas e fatos — de hoje e ontem — e nada se construía diante dele. Ou por suas mãos. Pelo contrário, algum deus furioso e sádico insistia em emprestar-lhe seus relâmpagos incessantes, outorgando-o a despejá-los sobre a vida morna que havia construído. Tudo exatamente como o cigano professara meses atrás, durante a quaresma.</p>
<p>Primeiro de tudo, esse deus tirou-lhe a casa. Sem o recanto, meio toca, meio castelo, ele não teria onde se esconder de si mesmo. Com isso, também lhe afastou os amigos. Manteve-os no mesmo mundo, mas todos distantes e ocupados para que ele sentisse o peso de incomodá-los, caso o fizesse. Colocou-os assim para que ele experimentasse a consciência sincera dos afogados ao suplicarem ajuda. E não demoraria a fazê-lo. Disso o deus sabia. Como alerta para ele mesmo, era preciso que fosse assim.</p>
<p>O próximo passo foi permitir (e até facilitar) que se frustrassem seus planos e lhe sumisse o sustento. Prevenido como era, demoraria um pouco até que se esgotassem todas as reservas dele. Já sem o lar, um inverno ao relento seria mais rigoroso e, para acelerar, seria bom que não lhe houvesse disciplina ou concentração para que tudo se consumisse mais rápido. Como não é permitido aos deuses negar nada aos mortais, restava dificultar-lhe o alcance a isso, mesmo que conhecesse e lhe sentisse a falta.  Para isso, o deus guardou toda a dedicação e consciência que couberam em galões bem pesados e estocou-os bem no fundo da última prateleira na sua estante celestial. Depois, dinamitou a escadaria. O mortal precisaria escalar o furacão dentro de si mesmo para apanhar as tais ferramentas e, mesmo que o fizesse, precisaria galgar um caminho de volta com o peso completo, sem derrubar nenhum grão ou gota desse fardo. Teria que beber tudo quando chegasse de volta, em segurança, ao chão de sua alma. Tarefa árdua até mesmo para um deus.</p>
<p>Mesmo sem teto, tribo ou vocação, ele ainda amava e isso era louvável. Protegia sua jovem fada como um lobo, partilhando o pouco pão e os andrajos que lhe haviam sobrado. Em troca, ela se despia de toda vaidade diante dele e, verdadeira como era, o abrigava entre as pernas, quente e macia. Nua desse jeito, ela lhe tinha amor puro e esse era outro recurso ao qual decerto se apoiaria para ignorar sua senda. O deus sabia que a solidão o aguardava nesse caminho e notou que, para obrigá-lo a amar a si mesmo e escalar usando apenas isso, precisava abalar tal patamar no mortal. Como todo amor de fada-amante é inabalável (e ela era, em parte, inocente à senda de seu amado), o deus decidiu que atacaria o coração dele. E atacaria com o que havia de sobra ali: a dúvida.</p>
<p>Nenhum deus é autorizado a ferir o amor, então foi a vez do diabo atuar. Distante de deus como é, a besta é ausente de onisciência e age sob jurisdição premeditada. Ela veio espreitar em disfarce magro, leve e calmo. Farejou, rosnou, mas nem precisou atacar. Notando-a, o mortal preparou-se para o combate e alertou sua amada. Essa, por sua vez, chorou o perigo dele colocar-se tão perto de algo vil como um diabo e pediu que fugissem. Jovem e tolo como era, ele apanhou sua lança e se encheu de coragem contra o adversário, encarando-o de igual para igual. Tal justiça lhe trouxe uma vitória justa e gloriosa, mas encheu-lhe o ego de soberba — a ferramenta preferida de todo demônio.</p>
<p>Tudo o que um diabo precisa é de tempo e atenção. Imortal como o é, o diabo usou toda sua paciência para lamber as próprias feridas e reaproximar-se pelas trevas de uma trégua fingida. Ordenou que seus lacaios roubassem a lança da vítima e, mal sentindo o cheiro da vaidade na presa, desembainhou-a suavemente como lhe é nativo. Diante do mortal desarmado, usou de magia negra para que essa lâmina escura penetrasse como agulha no peito exposto da valentia. Depois, usou o orgulho da caça para despir-se do disfarce e avançar-lhe na jugular sem decência alguma. Despido da decência, todo demônio é pavorosamente irresistível. Todo demônio é imbatível quando é nu. O mortal conheceu a derrota humilhante diante do diabo. Nem sempre é dia da caça.</p>
<p>Feliz ou infelizmente, nenhum diabo tem permissão de matar. O mortal fugiu e se escondeu, sem ganir ou lamentar-se, mas já era tarde demais. Já ciente dessa sua limitação, a besta se diverte judiando e humilhando os adversários vencidos, então enviou seus asseclas para sussurrarem o nome do fugitivo pelo Éter. Quando o encontraram, derrubado numa sarjeta, duvidava do amor da fada e masturbava-se pelo diabo. Trouxeram-no, já nu e ferido, diante do trono da besta e ela mesma o masturbou. Embriagado, o mortal tomou-a para si, currou-a e foi possuído por ela. Essa confusão nublou-lhe o amor e só então o inimigo sorriu. Vitória. Olhou de soslaio para o deus e soube que cumprira sua tarefa. Então, acorrentou-o ali como troféu. Para sempre.</p>
<p>Entretanto, embora seja fardo ácido, o tempo é nato aos morais e soma um apreço único aos fracassos de suas almas. Saiba que é dessas cicatrizes eternas forjadas pelo tempo que os deuses se alimentam quando têm fome, mas não era esse o caso (embora, um dia, certamente viesse a ser). O objetivo era o de sublimar a tempestade de confusão; a tarefa do deus era ensinar seu servo a domar furacões e, nessa missão, “para sempre” era tempo demais. Para o deus desfazer a eternidade imposta pelo diabo, era necessário hastear arreios sobre a besta e resgatar seu filho do inferno. Então, o deus laçou um nó de remorso (que á a chave para a redenção) e colocou-o ao alcance do pescoço do mortal. A saber, essa é chave que abre o portão do inferno por dentro: arrependimento.</p>
<p>Diante da escolha, o servo arrependeu-se. Esse enforcamento o tirou dos grilhões do diabo sem matá-lo, mas levou-o para o alto de outro cadafalso, diante de um poço escuro, de fundo invisível (ainda que longe da morte certa, embora ele não soubesse) e sem outra saída que não fosse confiar em seu deus. Para os mortais sempre sobra o livre-arbítrio e, mesmo oniscientes, é assim que os deuses agem para reconhecer a sinceridade plena. Eles ignoram sua onisciência e entregam as criações aos seus próprios caprichos, confiando que elas saibam o que fazer com esse desconhecido. Dificilmente elas sabem. Muitas se sentam eternamente à beirada do grande poço invisível e raso, desconfiando. Entretanto, dessa vez deu certo. O mortal soube o que fazer sem sequer titubear muito.</p>
<p>Primeiro, ele conclamou todos os seus — amigos, amores e família. Depois, colocou-se diante dos olhos atentos de todos retribuindo a nudez de vaidade que sua fada amante lhe ensinara. Depois mergulhou. Na queda, ilhou-se consigo mesmo e voou. Lá de cima, pode vislumbrar tudo o que lhe sobrara e, assim, soube exatamente o que fazer. Para que escalar quando se podia voar? Foi ao topo de si mesmo e, furiosamente, jogou o último relâmpago para baixo, sobre a própria cabeça. Fez isso com toda coragem que só os apaixonados por si mesmos possuem em suas almas e o deus soube que não se tratara de suicídio ou covardia de nenhuma natureza. Pelo contrário, aquilo era sacrifício sincero. E nenhum deus resiste a sacrifícios, saiba disso.</p>
<p>Esse foi o mergulho para findar o sofrimento. O mortal escancarou sua janela à geada noturna por conhecer o calor da manhã. Ele resgatou-se dentro de si mesmo só para, logo em seguida, entregar-se ao próprio julgamento. Humildade e sinceridade são virtudes louváveis que dão vazão à temperança e plenitude. Essas, por sua vez, ensinam a efemeridade eterna da memória e da vida. Sabem como grafá-la em tábuas de gratidão com sangue e luz, para durarem bem mais do que a neblina do fracasso. Sangue e luz.</p>
<p>Hoje, ele jaz assim; sangrando de braços abertos, sob a luz num mar escuro, sem vergonha nem vaidade. De tudo, resta-lhe a fé em si mesmo e a chama do amor eterno da fada que, ao contrário do que muitos poetas dizem por aí, não morre nunca. Manteve a fé em si mesmo e, por contigüidade, na divindade mais importante de todas: a Sua. Hoje, é esse Deus que habita sua cabeça, corpo, alma e coração. Jaz ajoelhado numa promessa muda. Aguarda respeitosamente a passagem daquele furacão que lhe tirou tudo, mas que, com isso, deu-lhe a chance de recomeçar outra vez. E recomeçar no comando das rédeas, sem voltar ao final da fila. Um prêmio para poucos. Exclusivo dos que sobrevivem ao livro de Jó.</p>
<p align="center"><img title="Tempest Elemental by Wizards of Coast" src="http://aprendizdeescritor.com.br/wp-content/uploads/2009/10/tempest_elemental_MMII.jpg" alt="Tempest Elemental by Wizards of Coast" width="400" height="553" /></p>
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