Há exatamente um ano atrás recebi um convite estranho do Claudio Brites. “É segunda-feira, à meia-noite. Chegue cedo e leve seus piores textos”. Era no coração do centro velho de São Paulo. Estranho. Acho que foi exatamente isso que me levou até lá.
Num recôndito burlesco e urbanóide da capital, tive a honra de participar da minha primeira Roda da Foice. É o Clube da Luta literário. Só feras. Só literatura. Sadismo cultural de elite. E o melhor: grupal. Criticamos e somos criticados de cara limpa. Sem diplomacia literária. Sem aspas na língua — porque clichê não sai sem foice. E só fica quem quer.
Hoje, o grupo tem nome: somos os Escritores de Segunda. Os motivos me parecem óbvios. Todos eles.
Nossas arenas literárias continuam acontecendo todas as noite de segunda. A cada reunião, um integrante fica responsável por elaborar a Ata Literária do encontro — anos-luz da burografia tradicional — e muitas delas acabam indo para o blog, onde há uma amostra do que as reuniões produzem. Eu acabei de estrear com um texto por lá. Entrei na roda. Vai ficar aí, parado?
Recentemente eu li uma crônica muito divertida num livrinho antigo. Ela falava de um menino esperto que resolveu vender palavras. Procurando para colocá-la aqui de presente, acabei encontrando outra tão legal quanto! Fica de presente!
Um comerciante decidiu ajudar a combater a “indigência lexical” do país, mas ao melhor preço do mercado: ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras.
Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”.
Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia:
— Histriônico, apenas R$ 0,50.
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse:
— O que o senhor está vendendo?
— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é “histriônico” a cinqüenta centavos, como diz a placa.