O Luiz explica com fluidez e eloquência a opinião que eu sempre engasgo em manifestar quando surge o assunto “escrever por dinheiro” num papo entre escritores.
Literatura é sim um produto. Entretanto, vale destacar que literatura não é apenas um produto.
Quando eu ajudei meu editor a entender isso, nossa relação melhorou demais. Melhorou tanto que hoje eu não só presto consultoria como assessor de marketing, vendas e produto para a Terracota como fui contratado como editor-assistente.
No Brasil, literatura também é segunda profissão, ou hobby mesmo. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Então, não importa muito sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Muito pouca gente vai ler. Dito isso, podemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor, mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. A pesquisa de Regina explicita que o assunto da ficção brasileira é o umbigo do seu autor, um coroa diletante.
Esse comentário acima é do André Forastieri, um jornalista que bloga no R7. Ele foi feito em cima de uma pesquisa bem polêmica feita pela professora Regina Dalcastagnè sobre etnias, gêneros e profissões entre escritores contemporâneos e seus personagens. A pesquisa provocou reflexão. O comentário deu um panorama bem interessante do atual ressentimento que a indústria cultural está vivendo.
Entretanto, é um ponto de vista (e de reflexão) obrigatório para qualquer Aprendiz de Escritor. Será que esse predomínio branco, heterossexual, diplomado, cinquentão é tão alienado assim da realidade onde vivem nossos escritores? Será um retrato tão fiel ou infiel da nossa geração cultural? Será ele tão demoníaco? Faça suas preces, veja o infográfico lá no Tumblr e deixe seu comentário aqui embaixo.
Ah! Uma dica: não caia na armadilha de confundir o “escrever sobre a realidade” com literatura engajada, marginal ou qualquer coisa do tipo. Escrever sobre a realidade é escrever na realidade. Imerso nela, com e sem vendas nos olhos, com e sem máscaras diante dos demais. Ciente do torpor, mas inevitavelmente mergulhado nele.
“Uma noite, numa faculdade provincial distante na qual aconteceu de eu estar ministrando uma longa turnê de palestras, sugeri uma breve sabatina — ofereci dez definições sobre leitores, a partir das quais os alunos tinham que escolher quatro que se combinariam para formar um bom leitor. Acabei perdendo a lista, mas até onde me lembro foi algo assim.”
Escreva. Comece a escrever hoje. Comece a escrever agora. Não escreva direito, apenas escreva — depois você vai corrigir. Permita-se a liberdade mental de desfrutar o processo, porque o processo da escrita é um processo longo. Desconfie de “regras de escrita” e conselhos literários. Faça do seu jeito.
— Dica preciosa de ninguém menos que a deliciosa Tara Moss, escritora de bestsellers criminais internacionais, palestrante e top model. Peguei lá no Advice to Writers.
Você pode me ignorar o quanto quiser, mas vai ter coragem de não dar ouvidos a essa gata?
Há uma enorme diferença entre ser um escritor de histórias ou uma pessoa comum. Como pessoa, você se compromete em manter a linha e até vacilar, mas sem sair por se debulhando em lágrimas pelas ruas, sem arrancar os motoristas grosseiros pela janela de seus carros, sem se balançar pelos galhos das árvores no caminho. Como escritor, é sua obrigação mentir e ver tudo na vida, ainda que ultrajante, como uma possibilidade interessante. Você pode precisar de ser impiedoso ou amoral em sua escrita para ser original. Contar uma história cruamente saída da vida real é apenas ser um repórter, e não um criador. Você tem que fazer a sua história maior, melhor, mais mágica, mais significativa do que a vida é, não importa o quão especial ou maravilhoso esse momento pode ter sido na vida real.
Citação de Rick Bass, escritor e ativista ambiental americano.
Escrever, como ler, tem que ter, para mim, um componente de prazer estético, tem que ser um desafio intelectual. Porque, antes de tudo, escrevo para mim, escrevo histórias que gostaria de ler. Penso que uma história, para convencer o leitor, tem antes, necessariamente, que convencer o autor. Se me convenço de sua necessidade, se o que tento passar me comove esteticamente, talvez eu possa então comover o leitor, porque pode ser que haja ali uma verdade.
Pura verdade. Durante um desafio no final do ano passado, descobri que escrever um romance é como puxar líquido pelo canudinho. Se você pára, tem que retomar do começo.