Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Dorien (v 1.6)

abril20

Dorien acordou. Já era noite.

Sentira falta do amigo estrangeiro. Ele ficou desaparecido por muito tempo e agora ela finalmente o reencontrava. Era estranho, pois esteve procurando por ele durante tanto tempo e agora, de repente, acordava com o amigo sentado diante das brasas do mesmo acampamento, como se ele nunca tivesse saído de lá.

Durante instantes, Dorien contemplou as matizes do fogo tingindo um rosto absorto. Seu jovem amigo parecia estar à deriva num mar de memórias. Com a voz ainda meio rouca de sono, ela interrompeu o silêncio intranqüilo das estepes, alertando-o que já havia despertado:

— Temos muito para conversar, estrangeiro.

Ele conteve quase todo o susto e olhou por cima do ombro na direção dela. Levantou uma sobrancelha se fingindo de desconfiado e sorriu. Ao vê-la acordada, se espreguiçando debaixo das cobertas de pele de carneiro, retomou o ar divertido de sempre:

— Ouvi muito sobre suas batalhas, moça… — e lá estava o costumeiro tom de esfinge.

Virou de costas para a fogueira, na direção dela. Aos poucos, Dorien se colocou sentada. Esticou os ombros suavemente para depois estalar o pescoço tentando relaxar. Enquanto amarrava os cabelos, deu uma boa olhada em volta: o acampamento estava escondido na reentrância de um rochedo grande e solitário que margeava a pradaria. Parecia seguro e confortável.
Terminou sua vigília com os olhos sobre o amigo. Ele estava distraído, usando sua adaga de combate de um jeito que ela achou engraçado, tentando tirar algo de dentro das brasas sem queimar as mãos. Dorien esboçou um sorriso e refletiu por alguns instantes.

O aroma refrescante da terra molhada se misturava com o acre das mochilas mofadas, ainda úmidas da chuva. Vez por outra, a brisa levantava o cheiro da madeira em brasa e trazia recordações de outras viagens que eles fizeram juntos. E nem parecia que já fazia tanto tempo assim.

Quando se deu conta que o amigo estrangeiro retribuía o olhar, Dorien, sacudiu a cabeça e sorriu de volta, tentando retomar o ar de seriedade:

— Encontrei um caminho na minha vida. Vou ao encontro de mim mesma.

Uma certeza perturbada se arrastava nas palavras da jovem amazona. Uma névoa de amargura, embaraço e resignação lhe apagava todo brilho dos olhos.

— As vidas costumam ser cheias de caminhos, garota guerreira — filosofou com deboche para descontrair — e existem muitos deles pra chegar no mesmo lugar.

Ela concordou com um sorriso meigo. Baixou a cabeça olhando para as próprias mãos, envolvidas com tiras de couro e descansadas no colo, sobre as cobertas macias. Sem levantar os olhos, concluiu:

— Mas nem todos os caminhos se mostram para nós de uma só vez, meu amigo estrangeiro. É preciso descobrir aos poucos e…

— …e essa é a graça da coisa toda! — ele completou de pronto, atraindo os olhos dela de volta e sorrindo para dissipar a seriedade tensa que a filosofia despertou.

Ao rirem juntos, reconheceram um tom de infância nas gargalhadas um do outro. Não era algo declarado, mas ambos sabiam que estavam satisfeitos por se encontrarem de novo. Dorien manteve o sorriso, se pôs de pé e espreguiçou. Dobrou as cobertas com cuidado, sentando confortavelmente sobre elas. Enquanto isso, o estrangeiro esticou o corpo na direção das brasas sem se levantar. Com cuidado, usou a proteção na palma das luvas sem dedos para apanhar um pacote chamuscado, embrulhado com folhas largas e fechado com um laço de cordão. Como se estivesse divagando, Dorien recomeçou:

— Eu tive um sonho… Na verdade eu acho que foi um sonho. Me fez pensar sobre a minha vida e me inspirou essa nova busca.

Ela assistia enquanto o amigo manuseava o embrulho com entusiasmo. Assim que ele desfez o nó do cordão, antes mesmo da primeira desdobra no pacote, um cheiro saboroso de temperos exóticos tomou conta do pequeno acampamento. Dorien se ajeitou sobre as cobertas e completou:

— Por causa disso, queria te pedir um favor.

Nem precisou desviar o olhar para saber que ela sorria tímida; respondeu concentrado em tirar a comida cheirosa de dentro do pacote sem queimar as pontas dos dedos.

— Certo. Cá estou eu, todo ouvidos…

— Eu tentei entender esse sonho, mas definitivamente não nasci pra isso. Como sei que você já viajou um bocado, imaginei que talvez pudesse me ajudar a desvendar um pouco mais sobre ele, isto é, se eu te contasse aquilo de que me lembro a respeito.

Os olhos curiosos abandonaram o pacote semi aberto e fumegante por alguns instantes, se voltando na direção dela:
— Claro que posso! Mas você não se incomoda se eu preparar alguma coisa para mastigarmos enquanto te ouço, certo? — sorriu, apontando o pacote.

Ela brincou inclinando o pescoço na direção do embrulho como se o farejasse. Depois sorriu e anuiu:
— Nem um pouco. Posso começar?

Postado como Ficção Fantástica
7 Comentários sobre

Dorien (v 1.6)

  1. Em 20 de abril de 2008 ás 5:58 pm Lu Faria dos Anjos disse:

    Bruno,

    Adorei! Apesar de ser suspeita pra falar de Literatura Fantástica, uma vez que me interesso pelo tema há algum tempo, acho que você não precisa continuar o curso. Você já está pronto. Siga o Fantástico…é o máximo! Beijos.

  2. Em 20 de abril de 2008 ás 7:55 pm Clau* disse:

    Continue, Bruno, fiquei curiosa. *rs*. Beijos.

  3. Em 22 de abril de 2008 ás 4:51 pm João F. A. Cunha disse:

    Bruno, gostei das imagens do texto, descrições instigantes… e que a aventura comece.

    Se não leu, vale a pena ler “Noite na Taverna” de Alvares de Azevedo, (tem disponível na net e é curto), para saber como começou o gênero fantasia no Brasil, além de ser uma lição de literatura.

    Abraços, João F. A. Cunha

  4. Em 23 de abril de 2008 ás 4:11 pm Renato Torelli disse:

    Vamos, vamos, prossiga.
    Abraço

  5. Em 24 de abril de 2008 ás 11:29 am Nanete disse:

    Bruno, querido, concordo com a Lu, você já está prontinho! Seu texto gostoso, fluido, nos carrega suavemente para um mundo bastante interessante. Parabéns!!!

  6. Em 24 de abril de 2008 ás 4:17 pm Sady disse:

    Bruno…”nem todos os caminhos se mostram para nós de uma só vez”…”é preciso descobrir aos poucos”….com essas frases você me fez sentir “o aroma refrescante da terra molhada” neste caminho que, eu, ainda embrião recém fecundado, já posso vislumbrar a grandeza da transformação que se pode dar às palavras, e ao que me espera no profusão das cores que advém desse mundo fantástico.
    Você foi demais.
    Sady Folch

  7. Em 25 de abril de 2008 ás 11:03 pm Olga disse:

    Bruno, que maravilha seu estilo e que empolgante acompanhar o texto! É como se estivéssemos partilhando da cena em volta da fogueira com os dois personagens, sentindo, vendo e vivendo como eles aquele ambiente gostoso que você criou. Concordo com os colegas que se manifestaram anteriormente: siga em frente! Deixou-nos com água na boca!

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