Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Escrevendo no frigir dos ovos

novembro23

O texto abaixo chegou até mim anônimo. Impossível não dividir com vocês.

Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo. 

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese… etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

13 Comentários sobre

Escrevendo no frigir dos ovos

  1. Em 26 de novembro de 2011 ás 9:55 pm Analia disse:

    Adorei como adoro as de L.F. Verissimo!

    Parabéns! E é tão bom, maneira ludica para rememorar o sentido de varias expressões brasileiras (e portuguesas ) quando estamos muito tempo
    sem usar de verdade nossa lingua!

    Muito bom mesmo! Tem poesia, estoria, humor , tem de tudo!

    Autor: Bruno Cobbi ?

  2. Em 27 de novembro de 2011 ás 3:19 pm Gracio Reis disse:

    Li e reli várias vezes.
    ” Quem nunca acomeu melado…..”

  3. Em 29 de novembro de 2011 ás 10:19 pm Luciel disse:

    É se escrevendo que aprende

  4. Em 3 de dezembro de 2011 ás 8:39 pm B.Sayuri disse:

    Há, eu ri no final.
    Que imaginação.
    Bejus,
    B.Sayuri

  5. Em 6 de dezembro de 2011 ás 1:24 pm Renata disse:

    Ler e escrever faz crescer

  6. Em 8 de dezembro de 2011 ás 12:07 am ALECXANDRA CONSUELO DE SOUZA disse:

    Fantástica a criatividade de contextualizar diversas expressões e ditos populares do tempo da carochinha. Parabéns ao autor e obrigada pelo compartilhamento.
    Alecxandra Consuelo de Souza.

  7. Em 21 de dezembro de 2011 ás 8:23 am Graziella Mafraly disse:

    Adoro quando comparam a arte de escrever com culinária, ainda mais de uma forma tão bem humorada (e elaborada).
    Parabéns ao autor, pois me diverti muito lendo esse texto!

  8. Em 13 de janeiro de 2012 ás 12:05 pm Roseli disse:

    Maravilha de texto que dá água na boca. Criatividade é isso mesmo. Parabéns ao autor que infelizmente não sabemos quem é. De toda forma, é um belo exemplo de um texto bem feito e criativo.

  9. Em 6 de fevereiro de 2012 ás 2:00 pm Diva Rubia Ungari disse:

    Delícia de texto! com muitas pitadas de criatividade e, realmente, muito bem feito – um prato cheio!

  10. Em 16 de fevereiro de 2012 ás 1:43 am JoãoL. disse:

    Incrível! De comer rezando! :)

  11. Em 16 de fevereiro de 2012 ás 2:23 pm Felippe Katan disse:

    Esse texto foi delicioso. Fiquei aqui com água na boca, embasbacado, tipo cachorro olhando pra máquina de frango assado. =D

  12. Em 12 de março de 2012 ás 2:01 pm Bogado Lins disse:

    Bacana. Não conhecia sua escrita. Gostei bastante. Vou acompanhar seu blog.

    Bogado Lins

  13. Em 13 de março de 2012 ás 3:21 pm emanuele pinheiro disse:

    Isso nao é simplesmente um texto mas sim, uma poesia literária. Amei!
    Quando li, pensei que eu o tivesse escrito.
    Muito bom mesmo.. Parabéns!

Não será divulgado

Exemplo de Website

Comentário:

Follow Me on Pinterest