O Testemunho de Ishtar Treva Eterna (Isthar v 1.4)
Não existe vida sem morte e este é o meu testemunho.
A Morte, o maior e mais poderoso de todos os Senhores Negros do Caos, foi quem me deu vida. Colocou-me no mundo dos vivos para que eu matasse em seu nome e aumentasse o contingente do seu exército de condenados. Nasci com a centelha de poder desse Senhor do Caos dentro de mim e desde muito pequena sei que pertenço à ele e que meu destino na terra foi vontade e fruto de seu imensurável poder. Desde a derrota da Semente do Caos, na vastidão das Terras Ermas, muitas outras garotas como eu vieram ao mundo. Somos vida fruto da morte, nascidas para trazer morte aos frutos da vida.
O convívio com as crias da noite revela sua beleza. Agora eu as admiro e elas me respeitam como a filha da Morte que sou. Recebem-me com júbilo em suas criptas para ensinar-me suas artes e conceder-me suas carícias. Hoje eu reconheço o poder do Senhor do Nada e sei que preciso serví-lo, mas nem sempre foi assim.
Eu rejeitava os mortos. Entorpecida pela mortalidade, fui tola e tentei esconder-me entre os meus para evitar que o olhar gélido e irrefreável da Morte recaísse sobre mim. Evitar o inevitável? Negar o inegável? Dentre todas as outras, foi até mim que o Senhor do Nada se dirigiu e eu tive medo. Talvez tenha sido minha ingratidão ou esse meu apego à vida o que atraiu sua atenção, mas me apavorei com sua majestade e, quando ele chamou-me para o seu leito, virei o rosto e recusei sua dádiva. Como uma mortal, o poder de meu livre arbítrio fez com que meu mestre fosse incapaz de levar-me contra a minha vontade, mas não antes de lançar sobre mim sua chama de revelação.
Nada mais me alimentava. Nenhum cozido, verdura ou fruta matava minha fome. Julguei-me amaldiçoada, vítima de uma vingança injustificada. Meus olhos nublados confundiram a bênção das trevas com um flagelo caprichoso. Fui uma ingrata: lutava, sofria e, inevitavelmente, me rendia à inanição. A sede era insaciável e a agonia era indescritível. Aos poucos, desejei a morte. Cega, incauta e burra, rastejei blasfemando contra desígnios completamente alheios ao meu entendimento limitado. Até que descobri qual carne mataria minha fome.
Nua, largada na sarjeta suja de uma cidade de ladrões, minha alma definhou conservando um vigor inexplicável no corpo. Pouco a pouco, a fome foi despertando a besta dentro de mim — insana, devassa e colérica. Quando os missionários da deusa do sol se aproximaram para socorrer-me, ouvi de longe o bater de seus corações e enxerguei o sangue pulsando nos braços que me acolheram. Foi na carne daqueles sacerdotes que encontrei meu destino.
Despida de vida e impedida de morrer, sacio com vidas essa sede de morte. Somente essa fruta negra e amarga, com seus caroços ásperos e sua polpa purulenta, acalma a besta que dorme intranqüila dentro do meu corpo. Preciso cumprir meu papel ao lado da Morte para me livrar desse fardo. Preciso reconquistar o meu Senhor; mostrar-me digna de ser sua consorte mais uma vez. Fazê-lo desejar-me como ele desejou antes. Entregar meu corpo e reaver minha alma.
Não há senhores sem servos ou bênçãos sem maldições, mas, antes de tudo, não há vida sem morte. Este é o meu testemunho que agora você carregará consigo. Sinta-se orgulhoso de si, mortal: cedo ou tarde, quer você queira, quer não, sua carne e seu sangue alimentarão minha lenda. A lenda do meu Senhor do Caos: glacial, afiado e implacável.

Versão Ilustrada (arte de Johnny Menezes)

Ai, tenho medo dessas suas mortas-vivas… mas, convenhamos, esta é bem sexy…..rsrs Bom texto, querido.
Imaginei perfeitamente, desde o brilho sombrio no olhar até o despertar da besta largada na sargeta.
Mas é impressionante como esse texto me deixa com água na boca!
“Nasci com a centelha de poder desse Senhor do Caos dentro de mim e desde muito pequena sei que pertenço à ele e que meu destino na terra foi vontade e fruto de seu imensurável poder.”
ADOROOOO!
Fazia tempo que não lia um texto seu assim, sombrio. E está muito bom.
Claro que eu adoro esse tipo de coisa, e isso evidentemente torna mais fácil ainda gostar, rs. Mas isso só prova que o texto está excelente. Pq, cá entre nós, eu só leio coisa muito boa!
=]
Do Caramba!