Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Luriel v1.1

novembro14

Havia — e ainda há — uma guerra. Não importa qual delas, afinal todas tratam do mesmo assunto. O que estou prestes a relatar, aconteceu numa das batalhas dessa guerra, numa disputa por fronteiras num canto esquecido do mundo.

A escaramuça contra uma minoria insistente de perdedores locais se alongava mais do que o previsto. O regente da maioria invasora de vencedores — o lado ao qual eu aliara meus interesses — tinha planos maliciosos para acabar com essa resistência: ele descobriu um ponto desprotegido na linha de defesa inimiga e enviaria o nosso destacamento — seus melhores e mais audazes guerreiros — com o objetivo de contornar a defesa inimiga para fazer um ataque combinado. Vitória garantida. Treinamos e nos preparamos como nunca para aquela noite, mas não havia como nenhum de nós estar pronto para o que encontramos no caminho.

Dias antes do ataque, fiquei responsável por vasculhar os escombros e túneis da ruína por onde invadiríamos o território inimigo e assegurar a rota dos nossos guerreiros nessa manobra militar decisiva. Como vocês verão adiante, minha memória não é meu tesouro, mas lembro nitidamente do calafrio que me correu pela espinha quando coloquei meus olhos naquelas ruínas pela primeira vez. Senti algo de errado ali dentro. Entretanto, por mais que eu procurasse, acabei sem encontrar nada, apenas os restos de uma construção muito antiga — um forte, mausoléu, masmorra ou templo abandonado há muitos anos e engolido pela paisagem na vastidão. Tinha pertencido ao passado remoto da região e agora não passava de um obstáculo de guerra abandonado, um buraco numa fronteira mal protegida. Negligenciei minha intuição e reportei segurança ao regente. Recebi elogios e o plano seguiu, mas na noite do ataque, o arrepio voltou. Não era a má impressão que as trevas causavam. Não era a ansiedade pela vitória iminente.

Era aquele arrepio.

Um fedor pútrido se espalhava pelo ar rarefeito das ruínas. Estávamos poucos metros abaixo da terra, mas nos sentíamos em verdadeiras profundezas abandonadas. Embora a aparência do lugar fosse completamente outra, o mapa que tracei continuava correto — e se assim fosse, ele nos levaria para a superfície em pouco menos de uma hora. O caminho não seria longo até nosso destino; atravessaríamos as ruínas a pé e garantiríamos o sucesso daquela missão. Aquele era o único caminho oculto e desprotegido, o próprio regente havia constatado isso no seu delicado planejamento militar.

Alguns de nós carregavam tochas acesas, mas todos mantinham as armas em riste e os olhos atentos. Percebi de imediato que a tensão não era apenas minha. Nosso líder guardava silêncio diante de nós e, embora nosso passo fosse acelerado pela necessidade de chegar ao outro lado a tempo, andávamos rápido também por receio daquele subterrâneo claustrofóbico e escurecido.

Atingimos o meio do trajeto — o salão maior, onde jaziam os restos de uma velha carranca de rocha. Nesse ponto, um sopro gélido nos surpreendeu e apagou todas as tochas. Os homens se olharam assustados e o líder interrompeu o passo. Não havia nenhum som além de respirações ofegantes. Senti — e tenho certeza de que não fui somente eu — um arrepio imediato e sinistro. O líder quebrou o silêncio chamando pelo sacerdote que, prontamente, gesticulou e sussurrou fazendo surgirem pequenos globos de uma luz azulada e fraca. Foi o bastante para que víssemos o que nos aguardava naquele saguão ancestral.

Distinguimos sombras nos cercando. Cerca de uma dúzia, do tamanho de árvores. O silêncio deu lugar ao desespero e a luz do sacerdote se transformou num brilho ofuscante. Ela arrancou urros esganiçados das silhuetas e revelou a natureza macabra dos habitantes daquela câmara. Eram criaturas deformadas, pálidas, que pouco lembravam gente. Sua pele era retorcida e colada em ossos protuberantes, debaixo de andrajos escuros e apodrecidos. As bocas se esticavam para gritar, abrindo o maxilar em ângulos bizarros e impossíveis. Os dentes amarelados formavam fileiras de serras afiadas e os olhos eram totalmente negros, como os de um tubarão do mar. As mãos, desproporcionalmente maiores, não carregavam quaisquer armas nem garras e os monstros pareciam flutuar como gênios ou fadas, recuando diante do brilho voraz emitido pelo feitiço do velho bruxo.

Detrás de nossos escudos, entendemos que a luz os feria. Num puxão violento, uma das criaturas arrastou o sacerdote para longe de nós. As demais se amontoaram como uma nuvem sobre ele, sugando-lhe o ar, o sangue ou algo do tipo, ignorando a luz ao redor. Num só instante, o pobre velho gritou, minguou e se retorceu, transformando-se numa múmia negra e magra, até se tornar parte da nuvem e dar origem a outro daqueles horrores flutuantes.

Alguns ameaçaram correr, desesperados como ratos assustados. No meio de nós, o líder latiu ordens em vão, pois uma sensação de medo mais antiga que o mundo dominava as almas daqueles bravos guerreiros. Era algo além do sobrenatural. Os que tentaram lutar não feriram as criaturas — as armas trespassavam os corpos fantasmagóricos e distorcidos dos inimigos — e diante disso, não havia nada a fazer além de formarmos um estouro de fugitivos em direção à saída. Em questão de instantes, o líder clamou debandada já praticamente sozinho na retaguarda dos sobreviventes.

Os gritos e urros que nos perseguiam pareciam vindos das profundezas do inferno. A luz do sacerdote ficou para trás — ou talvez tenha apagado, ou sido apagada, não sei — mas logo a escuridão voltou a tomar conta. Enquanto corríamos, quem tentava lutar ou ficava para trás era tragado violentamente pela escuridão, aos gritos. O líder insistia em palavras de fuga para aqueles que resistiam, mas nada suprimia o desespero da morte iminente. Até que o próprio comandante despencou no chão.

Inexplicavelmente, contive meu pânico e parei para ajudá-lo. Um uivo terrível o arrastou para as trevas e lutei com todas as forças para não permitir que também fosse levado, mas nada pude ver ou fazer — arrancaram-no dos meus braços e ainda pude ver o desespero no fundo da garganta dele e na ponta das unhas que ficaram no chão da cripta. Dei as costas e corri como nunca na vida. Quando vislumbrei a luz da lua na embocadura do arco de pedra que levava à saída, senti meus pés deslizarem e se encontrarem. Caí como trovão sobre o chão de pedra daquele último corredor. Sangue talvez. Não importava. Nada mais importava. Me desesperei. Eu morreria em instantes e o último grito que eu ouviria seria o meu.

Imediatamente, o uivo me alcançou e senti um novo sopro súbito de ar gélido, tão próximo do meu rosto que mal pude respirar. Num espasmo, senti uma dor indescritível — como se me prendessem anzóis por toda garganta, peito e coração ou como se eu engolisse milhares de milhagas de vidro cortante — era a vida sendo arrancada pelos meus pulmões. O frio entrou pela minha boca e me endureceu por dentro, anestesiando a dor e criando uma angústia enlouquecedora. O ar sumia rapidamente e minha vida ia-se com ele. Presumi que morreria e fechei os olhos com força. Só os reabri assustado pela vermelhidão repentina debaixo das minhas pálpebras. Era uma forte luz amarela que surgia na outra ponta do túnel.

Era quente. Anestesiava a dor e removia a angústia. Achei que era a morte chegando para me consolar, recebendo-me em seus braços, mas retomei parte da consciência para ouvir as criaturas rugirem de dor novamente. Elas recuaram aterrorizadas e tudo ficou claro como um dia de sol. Não pude ver o que as espantava no coração do clarão amarelo. Era como o próprio sol, só que agora ao meu lado, quase dentro de mim. Meus olhos falharam, não senti minha voz, meu corpo não respondeu e tudo ao meu redor se apagou.

Durante três dias, vivi num pesadelo constante. Via vultos me perseguindo e via o rosto deformado dos horrores flutuantes. Sentia o toque gélido das criaturas no cativeiro de um túnel sem fim. Quando reabri meus olhos, estava de volta ao acampamento. Soube que mais ninguém sobreviveu àquela manobra. Me encontraram inconsciente, bem distante das ruínas e, estranhamente, não me perguntaram quase nada. Dias depois, sem maiores explicações, o regente levantou a acampamento e declarou recuo. Perdemos a batalha, mas eu perdi muito mais do que isso naquela noite.

Quando caí em mim, percebi que não recordava de nada que ocorrera antes desse acidente, como se não tivesse acontecido nada antes dele e eu tivesse nascido ali. Não havia família, não havia nome e não havia amigos. Tudo havia sumido da minha memória. Se já não bastasse, quando pude finalmente levantar-me e sair da enfermaria, os olhares do acampamento me coagiram. Por que apenas eu havia sobrevivido? Onde estavam os demais guerreiros que entraram naquelas ruínas para garantir a vitória certa? Por que as ruínas — das quais fui responsável por garantir que estavam tranqüilas para nossa passagem — estavam cheias de morte e desespero naquela noite? E por que apenas eu sobrevivi?

Trataram-me com desprezo e preconceito. Alguns acusaram-me de covardia enquanto outros me consolavam por ter feito o que sabia fazer de melhor: correr. No entanto, eu lembro de ter caído e perdido todas as forças ainda dentro daqueles túneis. Não se esquece assim uma dor daquelas. Eu não corri. Não saí daquele lugar amaldiçoado. Alguém me tirou de lá. Alguém ou algo que eu não sei o que foi.

Abandonei essa guerra poucos dias depois, em exílio sob suspeita de traição. Não senti tanto peso assim, pois ninguém que restara ali sabia nada ao meu respeito, nem tinha nada para me ajudar a recordar quem eu era. Todos com quem estive haviam morrido no meio da guerra e os últimos pereceram naquelas ruínas. Vaguei por um tempo, tentando recordar tudo o que esqueci, e conheci lugares e pessoas que me mostraram caminhos pelos quais poderia continuar seguindo. Uma dessas pessoas, um velho cego que mendigava na beira de uma estrada, me disse que eu havia ganho uma oportunidade valiosíssima: a de reescrever a história do meu destino. Uma segunda chance.

Sobre mim, tudo o que eu sabia é que tinha pertencido aos batedores talentosos do destacamento especial do exército daquele regente derrotado. No exército, eu tinha um nome, mas ninguém confia nos nomes da guerra. Durante noites a fio, exercitei a meditação para recobrar minhas memórias, mas não consegui encontrar nada. Aprendi que não adianta tentar recobrar o que eu perdi. Foi tudo apagado. No entanto, a meditação agora serve para que eu planeje o que farei com essa segunda chance que me foi outorgada. Hoje eu sei o que quero. Quero aprender tudo novamente e, independente de quem eu fui, amanhã serei ser melhor do que fui hoje. Serei melhor do que fui na primeira vez.

Postado como Ficção Fantástica
3 Comentários sobre

Luriel v1.1

  1. Em 17 de novembro de 2008 ás 5:28 pm Bruno Cobbi disse:

    Texto escrito a quatro mãos com a habilidosa (e inseparável) companheira de fantasias Sue Simon, exímia desenhista, contadora de histórias encantadora e amiga fiel dos primórdios da minha adolescência rebelde — literalmente. :D

    Não vou dar nenhum detalhe à respeito desse. Prefiro esperar que vocês comentem primeiro. Depois eu falo mais à respeito dele e do que almejei exercitar nessa aventura.

  2. Em 17 de novembro de 2008 ás 9:24 pm Sue disse:

    Ai que emocionante! Sou eu aí escrevendo (ou quase), rs
    O texto ficou incrível. Você o deixou redondinho redondinho! A-D-O-R-E-I!

    Obrigada pela adaptação e claro que sempre é uma honra ter um escritor do seu porte, reescrevendo algo meu.

    Agora sobre quando o criei, foi surgindo tudo conforme eu ia escrevendo. E eu gostei de escrever dessa forma. Cada parágrafo vem surgindo na mente de um jeito mágico quando se tem aquela vontade de escrever. Você deve entender disso melhor que eu.

    Mas, enfim… Poxa, adorei mesmo. E agora vou aguardar os seus comentários.

    Obrigada mais uma vez. :-)

  3. Em 18 de novembro de 2008 ás 8:59 am Pocb disse:

    Sue, seu posto como a melhor em backgrounds está, como sempre esteve, intocado! Muito bom o texto. Me coloquei no lugar do personagem e tive vontade de ser ele. Parabéns pelo texto! E Bruno, parabéns pela revisão e adaptação!

    Muito bom!

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