Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Luto ao Mago Matadeus

junho18

Será que eu é nunca tinha vivido a morte de um Mago Matadeus? Será que nunca estive vivo durante, ou atento a isso antes?

Será eu, mago?

Será que é sempre assim, aos sussurros? Será que essas mortes não liberam faíscas de júbilo divino — provavelmente alegria de ver-se livres desse temido algoz —  que dilaceram jangadas de pedra, esfacelam a terra do pecado e provocam genocídios e catástrofes? Será que estive ensaiando uma cegueira a isso durante todo esse tempo?

Será que nas intermitências da morte de um Matadeus não ocorrem eventos alegóricos, dignos da história do cerco sobre Lisboa ou dos versos mais catárticos de um épico grego? Será que não é como o despertar de um vulcão que destrói cidades ou um furacão que ganha nome e fica marcado na história deste mundo e do outro? Ou até do universo. Será que a morte de um Mago Matadeus não passa disso, uma caverna?

Será esse o silêncio-sussurro de uma das agonias do evangelho segundo Jesus Cristo? Será real essa neblina de morte que paira sobre a noite ou o silêncio da nobreza na viagem dos elefantes?

Será essa a vingança dos tantos deuses que o mago vitimou?

Será, Matadeus, que todos esse nomes, toda essa magia, vem de poemas possíveis? Pergunto, pois você, Matadeus, foi esperto e, no ano de 1993, cunhou tábulas que serão um objecto quase, um ensaio sobre a lucidez. Você cerziu-se numa das feridas da humanidade para que ela não possa jamais se livrar de você sem abrir novamente a pústula.

Será, Matadeus, que é você quem se tornou o dissoluto absolvido das pequenas memórias de si mesmo? Será que me enganou esse tempo todo e compôs o conto da ilha desconhecida em nome de Deus? Duvido, mas rezo pra que tenha sido.

Dentre tanto mestres, tantos magos, será que você, Matadeus, era o último dos que restavam entre nós? Será que você, Matadeus, vai responder o que faremos com esses livros todos?

Diante de tanto torpor, tudo que eu queria ser capaz é de amplificar sua ausência. Ou parte dela. Ou de minimizá-la eu mesmo, como Aprendiz de Matadeus. Quem sabe numa viagem a portugal, para decorar seu túmulo abaixo da oliveira no quintal com a maior flor do mundo. Será que serei capaz, Matadeus? Será que me deixaste capaz de fazer-lhe homem duplicado?

Será eu, Mago?

Postado como Ficção Poética
4 Comentários sobre

Luto ao Mago Matadeus

  1. Em 21 de junho de 2010 ás 10:46 am Ilona disse:

    Nossa, fiquei muito… Interessada neste post.

    A leitura é fascinante e prazeirosa, além de dar a impressão de um algo mais. Muito chamativo.

    Quem sabe um dia eu não chego a ter o talento tão desenvolvido assim, para escrever com delicadeza e poesia.

  2. Em 21 de junho de 2010 ás 2:00 pm Bruno Cobbi disse:

    Ilona,
    Sobre o texto ter um “algo a mais”, você tem razão: é a minha homenagem póstuma a um dos mestres cujos escritos me guiam na jornada pelas letras. Ele sim merece toda sua admiração.

    Entretanto, independente da admiração que você sinta, não deixe isso intimidá-la! Dei uma passadinha lá no seu blog e não é por falta de talento que você vai escrever menos!

    É uma delícia saber que meu blog me permite partilhar textos com leitores de lugares tão distantes desse Brasil! Obrigado pela visita, pela leitura e pelo seu comentário tão cheio de elogios!

  3. Em 21 de junho de 2010 ás 3:54 pm Bode disse:

    Se Saramago fosse dado a amenidades, diria que ele, Blimunda, e Baltasar Sete-Sóis, trocaram a máquina voadora — sucesso garantido — pela passarola, e, sob o olhar inquieto e excitado do Padre Bartolomeu de Lourenço, estão voando sobre Lanzarote.

  4. Em 21 de junho de 2010 ás 5:12 pm Bruno Cobbi disse:

    É uma honra ter as letras de mais um dos meus companheiros nos Escritores de Segunda para reforçar a homenagem aqui do Aprendiz!

    Teje em casa, compadre caprino! :D

Não será divulgado

Exemplo de Website

Comentário: