NaNoWriMo: O que eu aprendi sobre ser escritor?

Não devo temer.

O medo é o assassino da mente.

O medo é a extinção breve que acarreta a obliteração total.

Eu enfrentarei meu medo.

Permitirei que ele passe por mim e me atravesse.

E quando ele se for, observarei  seu caminho com meu âmago.

Onde não houver medo não haverá nada.

Restará apenas eu.

— “Litania contra o medo”, do clássico Duna de Frank Herbert
(a tradução é minha)

O desafio acabou. Eu superei.

Pra quem não sacou, dê uma olhada na postagem anterior. O NaNoWriMo é um desafio mundial, onde uma galera se junta para se incentivar a cumprir uma rotina literária INSANA que ensina MUITO sobre a carreira de escritor profissional. O que segue, são as lições que tirei do meu primeiro desafio.

Contexto. Determinação. Disciplina.

Existem mil maneiras de escrever um livro. Mas só existe uma forma de exercitá-las.

Essa é a primeira lição que eu aprendi com o desafio: não existe escritor que não escreve.

A segunda lição é que existe um degrau enorme entre o mundo comum e o universo dos escritores profissionais. Nadadores profissionais nadam muito todo dia. Lutadores profissionais lutam muito todo dia. Corredores profissionais correm muito todo dia. Adivinhe o que é que você precisa fazer se quiser ser escritor profissional?

Terceira lição: obrigar-se a vomitar 1700 palavras/dia na mesma narrativa te fazem enxergar que não basta inspiração. Muitas vezes só te resta insistência. É essa mesma insistência que vai se transformar em “bloqueio criativo”, em “ausência de idéias” e, finalmente, em “falta de tempo”. É a lei de Darwin dos escritores. Talento conta muito e sorte mais ainda, entretanto, lá na base de todas as coisas, é a prática quem manda prender e manda soltar no mundo das letras.

Como não se tratava apenas de escrever qualquer coisa (precisava sair um livro no final), eu imaginei que uma estratégia ajudaria. Encontrei quilos googlando por aí, mas elegi as duas que foram mais fundamentais para partilhar com vocês. Esqueça os sites. Uma foi aprendida numa oficina (no curso do Nelson). Outra foi deduzida por mim. Na raça mesmo.

Lição da oficina: Interligue cenas

Cenas chegam aos borbolhões. Livros, jogos, sonhos, filmes, quadrinhos, fotografias, desenhos, piadas, situações vividas por aí — quando eu me vi obrigado a escrever voragens de palavras todos os dias, tudo isso passou a virar matéria prima (bem prima mesmo) pra minha linha narrativa. Roubei almas, copiei descaradamente, exorcizei tabus, esquizofrenizei personagens, adaptei a vida à ficção (muitas coisas reais não ficam verossímeis na ficção, você vai se surpreender quando começar a notar) e um raciocínio básico, uma idéia tênue de começo, meio e fim ajudam um bocado.

Um bom exercício é: pense numa cena marcante sobre a qual você quer escrever. Agora escreva. Sem revisar. Só escreva mesmo. Pronto? Bom, isso provavelmente será o começo, meio ou fim de um capítulo. Ou mesmo do seu livro. A partir daí, desenvolva o mesmo raciocínio para todas as demais cenas. Escreva umas dez cenas por dia. No final da semana você vai ter que comprar um mural, uma lousa ou uma caixa de diazepam. Não compre nada disso, sente e escreva mais uma cena.

Lição que eu deduzi: O show não pode parar

O mundo não vai parar pra te esperar ficar ansioso. Você precisa continuar. Não se deixe consumir pela ansiedade ou pela dó de si mesmo. Escreva. Escreva sobre a ansiedade. Escreva sobre não conseguir escrever. Determinada hora aquilo vai te dar uma luz. O texto escrito vai falar contigo. A estruturação de raciocínio que uma frase exige vai combater a ansiedade e a confusão — vai te dar respostas. Fale com quem estiver por perto. Escreva essas pessoas. Fale com seus demônios. Escreva eles. Ninguém vai escapar. Seja impiedoso.

Minha estratégia envolveu uma luta contra a ansiedade. Eu escolhi não contar as palavras até a última semana do desafio. Não aguentei. Na penúltima eu contei. Felizmente eu não estava assim tão longe, o que só me incentivou a continuar. Deu certo. A resposta é: não páre de escrever. O show tem que continuar. Por causa disso, não vou parar em duas lições.

Lição extra: Esqueça o pé na jaca, enfie a cabeça mesmo

Você precisa de amigos escritores. Você precisa de revistas de escritores. Você precisa de sites de escritores. Você precisa de uma namorada de escritor. Até de mãe você precisa trocar se a sua não for uma mãe de escritor.

Estar imerso num universo de escritor faz TODA a diferença. Ter apoio é fundamental. Minha noiva está deitada sozinha ao meu lado desde as três da manhã (e já são quase sete). Ela é muito compreensiva com a minha maldição profissão. Meus amigos sabem que eu recuso baladas pra ficar escrevendo. Eles sabem que eu páro no meio das baladas pra escrever (ou descrever) coisas no celular. Eles já se acostumaram. Eles zoam incentivam. Alguns até me contam coisas bizarras na esperança que isso vire literatura.

Agora chega!

Pare de ler essa droga de blog e vá escrever sobre o que quer que você esteja pensando agora. Se não estiver pensando em nada, pense em algo. Se estiver travado, vá fazer algo que vai te render inspiração, tipo ficar na sacada imaginando zumbis espalhados pela rua da sua casa. Se não ajudar, ligue a TV num canal de comerciais e imagine o que um ET faria com uma porcaria daquelas. Se nem mesmo isso ajudar, pegue um caderno e um lápis e vá dormir. Quando acordar, anote tudo.

Agora suma daqui. Você está perdendo tempo.

14 comentários sobre “NaNoWriMo: O que eu aprendi sobre ser escritor?

  1. Daí seu teclado quebra e tudo deixa de fazer sentido. Ok, derrotista, eu sei, mas meu teclado do note quebrar essa semana me deixou mal.

    Super adorei o post e concordo com muita coisa. Sabe que o principal é ter bons amigos – chatos- que ficam te pentelhando pra você escrever. Eu tenho um somente, creio que se tivesse mais escreveria mais.

    Beijinhos 😉

  2. Olá Bruna,

    Os amigos artistas são uma tremenda ajuda! Não é de hoje que os círculos literários produzem grandes artistas tanto aqui quanto lá fora: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manoel Bandeira, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, João Gilberto, Adoniran Barbosa, Mary Shelley, H. P. Lovecraft e muitos outros! Mesmo os não artistas, aproxime-se dos que consumem seu trabalho e principalmente desses “chatos” que incentivam.

    E não se deixe abatar por um teclado quebrado! Corra numa lojinha e compre um teclado USB ou use pendrive e mouse pra transferir seus arquivos para outro computador onde você possa continuar seu trabalho.

    Uma boa dica, é sempre manter cópias de backup atualizadas dos textos nos quais você estiver trabalhando num pendrive (salve os arquivos com senha se quiser mais segurança) ou num servidor online, como o Google Docs. Existem softwares e plugins para os processores de textos mais famosos que fazem essa sincronizaçãom automaticamente.

    Backup salva a vida nesses casos.

  3. Cara, show de bola seu blog!

    Também entrei faz poucos anos nesse mundo da escrita e percebo como é difícil escrever sempre. Surgem os desânimos, a preguiça, a falta de idéias, a falta de tempo mesmo (já q preciso dividir minha atenção entre trabalho-ganha-pão, esposa, filha, cachorros, livros que estou lendo, filmes e seriados que assisto!).

    Seu blog já está na minha lista dos favoritos.

    De agora em diante passarei aqui sempre pra ler as novidades e os aprendizados que você obteve para “sugar” o conhecimento! hehehe

    Se você tiver um tempo, passa no meu blog (http://expressionando.wordpress.com) que eu criei justamente pra postar minhas histórias!

    Prazer em conhece-lo Bruno!

    Falows!

  4. Bruno,

    Gostei DEMAIS desse post. Ótimas (e verdadeiras!) dicas não só pra quem quer se tornar escritor, mas, pra alguém como eu que gosta de se perder nas letras e de, certo modo, se encontrar e se reinventar nelas.
    ADOREI!

    Li em voz alta para maridão que gostou muito também das ideias e sugestões, além da maneira divertida com que escreves. E olha que ele não é de muita leitura não…rs, sou eu quem o arrasta um pouco nessa empreitada, quero que ele se contamine e até dá certo! PARABÉNS, mais uma vez!

    E, se eu não aparecer por aqui antes de 2010 findar mesmo, desejo a você e sua família BOAS FESTAS, cheinhas de guloseimas e mais que isso, cheinhas de BOAS NOVAS!

    Bjins e até!

  5. Oi

    Eu também participei do NaNoWriMo em 2010 e consegui terminar o desafio. Achei teu texto fantástico e gostaria de te pedir permissão para reproduzí-lo no Ficção em tópicos, site sobre a arte de contar histórias. Dá uma olhada no texto que eu escrevi relatando minha experiência diária durante o processo.

    http://ficcao.emtopicos.com/2010/12/como-consegui-escrever-um-livro-em-4-semanas-dedicando-no-maximo-90-minutos-por-dia-para-a-atividade/

    Parabéns pelo site. Vou começar a acompanhar de perto.

    abs

  6. Bom, na época eu já tinha passado lá pelo cantinho Smaily e deixado minhas pegadas por lá. Volto agora pra encontrar o Expressionando com fôlego renovado e repleto de ares com tons de Deuses Americanos! Parabéns cara!

    Com a eu até troquei emails e fiquei muito contente em saber da experiência que o casal viveu lendo minha postagem! E o mais legal, voltando agora ao blog dela, descobri que ela segue um blog conhecido e acabei reencontrando o cantinho de uma amiga de letras que foi uma verdadeira professora pra mim: a Olga.

    E quanto ao texto, Diego, pode reproduzir lá no Ficção em Tópicos sim. Lógico, dados os devidos créditos né? Seja sempre bem vindo ao Aprendiz e obrigado pela força na divulgação!

  7. Oi Bruno. Só para te avisar que publiquei teu texto lá no Ficção em tópicos, com todos os devidos créditos e lincando de volta para o Aprendiz de Escritor. abs

  8. Querido,
    adorei sua matéria.
    Achei-a quando estava procurando informações sobre o NaNoWriMo.
    Sou escritora de romances. Já escrevi mais de 12 livros e não paro. Tenho muitos amigos que me incentivam não só a escrever mas também a publicar, o problema é que no brasil isso é muito caro e complicado.
    As editoras esperam que paguemos antecipadamente pelos livros ou então jogam seu livro no site com milhões de outros sem nenhum tipo de merchandisising e por ultimo ainda tem aquelas que só mandam para gráfica os livros já vendidos e caímos sempre na mesma falta de divulgação e para finalizar eles cobram muito caro por um livro de ficção e entretenimento.
    A Arlequim Books,a maior editora de romances do mundo só aceita manuscritos em inglês e a tradução aqui é carérrima.
    Você tem alguma dica?
    Abraços para você e sua noiva.
    Leatrice

  9. Eu sempre fico feliz quando eu encontro um blog de um escritor. Quando digo escritor, digo escritor mesmo. Obrigada por dividir tuas dores e machucados nos dedos. ^^
    Gostaria de ter participado do desafio, pois eu sempre estou com falta de ideias e vontade de escrever. Esse desafio teria me mostrado um pouco de como é duro uma vida de escritor. Imagino que seja assim mesmo.
    Ainda sonho com o dia em que eu acordarei cedo apenas para correr para o computador e passar o dia inteiro escrevendo e não procurando inspiração em blogs alheios.
    Amei o seu blog, já adicionei aos favoritos. Pretendo visitá-lo sempre que eu estiver com falta de vontade. ^^

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