Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

O poço, o deserto e o labirinto

novembro16

Tudo que Ela conseguia fazer era chorar Amor. Era como se estivesse presa numa teia de mágoa e desespero cerzida pelo Passado. Tão presa, que nada podia convencê-la de si mesma. Nada era capaz de mostrá-la que tudo já havia passado, mas que ela ainda estava ali.

Primeiro, despencou no Poço Escuro da Agonia. Contorceu-se no ar a quilômetros por hora, desesperada pela queda sem fim e pela obviedade de um fundo seco e maciço que aguardava obscuro nas sombras. Especial como só ela, demorou pouco a perceber que o fundo não chegaria nunca e que esse é o castigo desse poço — ele é infinito.

Como acontece a todos que o decifram, o poço acabou de súbito para ela. Surgiu então a luz de esperança no fundo que, numa lufada, se transformou na cegueira de um lampejo. Aterrissou fofa e áspera numa das mais altas dunas dos Desertos da Culpa. Outra armadilha do Destino, esse local é a prisão perpétua onde inúmeras almas perdem eternidades. Ela não. Observou as pessoas pontilhadas em rastros pelo horizonte, cumpriu alguns desenhos mentais, fez as contas e logo entendeu que a culpa cega as pessoas umas para as outras.

O Destino cerrou os dentes e não se deu por vencido. Arrastou-a então para a prova final: o Labirinto da Memória. São poucos os que chegam tão longe… Seria ela capaz de lidar com seus pensamentos? Enfrentar o pior dos adversários? Ela não só foi atraída pelos altos portais de bronze da entrada — castigados pelo Passado que insiste em forçá-los — como achou curiosa a maneira como as vinhas dos pensamentos se entrelaçavam, criando caminhos que, embora geométricos, se transformavam em corredores e alcovas feitos de pura confusão.

Deixou-se vagar por alguns instantes. Observou o céu sumir acima de uma tempestade que molhou-a e ergueu uma neblina morna e estranha. Ao topar com a primeira clareira do dédalo, se surpreendeu reassistindo à sua memória mais antiga como se estivesse numa sala de teatro: ainda muito pequena, ela mesma tentava pedalar um triciclo diante de si. Ela, a pequena, olhou para si mesma, a atual, e diante da impotência de ambas, abriu o berreiro. Logo o pai se materializou para ajudá-la e tudo sumiu como fumaça. Virou neblina, ou melhor:  parte da neblina. E lá estava ela, sozinha consigo mesma novamente.

Calmamente, sentou-se de pernas cruzadas bem no centro dessa clareira, em pose de índia e molhada até os ossos. Castigada pelo temporal do labirinto, sentiu o cabelo escorrer-lhe na face e lembrou da forma como Ele, e só Ele, fez questão de, mesmo debaixo de uma tempestade torrencial, tirá-los da face dela com um afago antes de dar-lhe o beijo para  finalizar o banho de chuva. Fechou os olhos e tudo lhe foi tão vívido que sentiu a textura dos lábios e o cheiro da pele dele.

Abriu os olhos e testemunhou a neblina dissipando o labirinto. Sozinha em si mesma, sentada de pernas cruzadas em sua própria consciência, tocou os lábios como se pudesse tatear a memória recém resgatada. A tempestade virou chuva e Ela então se ergueu. Tinha encontrado a chave de si mesma e do Universo. Não haveria porta que pudesse impedi-la a partir de então. Tudo que precisava saber era onde diabos ela o tinha escondido dentro de si mesma.

under_the_sun_byDaveMcKean
“Under the Sun” por Dave McKean
Postado como Ficção Poética
7 Comentários sobre

O poço, o deserto e o labirinto

  1. Em 18 de novembro de 2009 ás 10:04 am Elis Barbosa disse:

    A maneira como ela se entrega ao movimento, a valentia de quem se deixa experimentar, de quem vive francamente o que tem de ser vivido, me comoveram.

    Fazia era tempo que eu não passava por aqui, valeu ter voltado. Lindo o seu texto!

    Um abraço,
    Elis Barbosa

  2. Em 1 de dezembro de 2009 ás 12:26 am Bruno Cobbi disse:

    Elis,
    Seja bem-vinda ao Aprendiz! Obrigado pela visita, pelo comentário e pelos elogios.

  3. Em 29 de dezembro de 2009 ás 6:17 pm Laura Fuentes disse:

    Bom você estar de volta ficcionando….e bacana o mergulho d’Ela.

  4. Em 18 de janeiro de 2010 ás 1:34 pm Viviane Yamabuchi disse:

    Muito bonito e muito bom também! Parabéns!

    Eu me identifiquei bastante com este texto!

    Abraços!

  5. Em 7 de fevereiro de 2010 ás 9:39 pm Bruno Cobbi disse:

    Laura,
    Você é cadeira cativa. Obrigado pela presença.

    Viviane,
    Que orgulho saber que toquei um ente feminino que, pelo que senti no seu blog, é tão comprometido emocionalmente com sua literatura. Um verdadeiro elogio.

    Obrigado pela visita e pelo comentário. Seja bem vinda ao Aprendiz!

  6. Em 22 de novembro de 2010 ás 2:41 pm disse:

    Oi Bruno!

    Tardo, mas não falho… :D

    Ler teu blog é sempre sair do convencional, do trivial… Adoro!

    Claro que esta leitora aqui algumas vezes precisa recorrer (sem vergonha…) ao dicionário e aprendo muito! (dédalo?rs – blog “Aprendiz de escritor” é cultura, de fato!).

    Gosto dessa forma de nomear pessoas e situações (o Destino, Ela, o Labirinto da Memória…) – com certeza tudo isso tem nome dentro da literatura, enfim, essa maneira em que é possível qualquer pessoa se identificar com a personagem. Ela poderia ser eu, você, tantos outros e outras que passam a vida caindo, se perdendo, retornando, se encontrando.

    Bjins e até!

    Tento sempre ler vários posts quando consigo uma folguinha no expediente de Amélia… :)

  7. Em 28 de novembro de 2010 ás 3:52 am Bruno Cobbi disse:

    Olá Jô,

    Sea sempre bem vinda ao Aprendiz, tua jornada por aqui sempre é muito produtiva, com comentários bacanas que somam bastante às postagens.

    Sobre as palavras, eu me encanto com textos que me surpreendem com palavras novas (dentro do aceitável, lógico) e obviamente acabo transferindo isso para os meus contos. Espero que você curta essa pequeno esforço assim como eu.

    Sobre nomes mais vagos, o Scliar tem um livrinho chamado Os Contistas e Outras Histórias onde ele fala que isso é mal de contista. Tive um monitor oficineiro que dizia que isso é uma forma do escritor se distanciar dos seus elementos. Eu gosto de usar assim epla força que esse ícones carregam. Bem usados, eles contam com o poder de o repertório de gerações por trás de si.

    Bjo!

Não será divulgado

Exemplo de Website

Comentário:

Instagram
Follow Me on Pinterest