O poço, o deserto e o labirinto
Tudo que Ela conseguia fazer era chorar Amor. Era como se estivesse presa numa teia de mágoa e desespero cerzida pelo Passado. Tão presa, que nada podia convencê-la de si mesma. Nada era capaz de mostrá-la que tudo já havia passado, mas que ela ainda estava ali.
Primeiro, despencou no Poço Escuro da Agonia. Contorceu-se no ar a quilômetros por hora, desesperada pela queda sem fim e pela obviedade de um fundo seco e maciço que aguardava obscuro nas sombras. Especial como só ela, demorou pouco a perceber que o fundo não chegaria nunca e que esse é o castigo desse poço — ele é infinito.
Como acontece a todos que o decifram, o poço acabou de súbito para ela. Surgiu então a luz de esperança no fundo que, numa lufada, se transformou na cegueira de um lampejo. Aterrissou fofa e áspera numa das mais altas dunas dos Desertos da Culpa. Outra armadilha do Destino, esse local é a prisão perpétua onde inúmeras almas perdem eternidades. Ela não. Observou as pessoas pontilhadas em rastros pelo horizonte, cumpriu alguns desenhos mentais, fez as contas e logo entendeu que a culpa cega as pessoas umas para as outras.
O Destino cerrou os dentes e não se deu por vencido. Arrastou-a então para a prova final: o Labirinto da Memória. São poucos os que chegam tão longe… Seria ela capaz de lidar com seus pensamentos? Enfrentar o pior dos adversários? Ela não só foi atraída pelos altos portais de bronze da entrada — castigados pelo Passado que insiste em forçá-los — como achou curiosa a maneira como as vinhas dos pensamentos se entrelaçavam, criando caminhos que, embora geométricos, se transformavam em corredores e alcovas feitos de pura confusão.
Deixou-se vagar por alguns instantes. Observou o céu sumir acima de uma tempestade que molhou-a e ergueu uma neblina morna e estranha. Ao topar com a primeira clareira do dédalo, se surpreendeu reassistindo à sua memória mais antiga como se estivesse numa sala de teatro: ainda muito pequena, ela mesma tentava pedalar um triciclo diante de si. Ela, a pequena, olhou para si mesma, a atual, e diante da impotência de ambas, abriu o berreiro. Logo o pai se materializou para ajudá-la e tudo sumiu como fumaça. Virou neblina, ou melhor: parte da neblina. E lá estava ela, sozinha consigo mesma novamente.
Calmamente, sentou-se de pernas cruzadas bem no centro dessa clareira, em pose de índia e molhada até os ossos. Castigada pelo temporal do labirinto, sentiu o cabelo escorrer-lhe na face e lembrou da forma como Ele, e só Ele, fez questão de, mesmo debaixo de uma tempestade torrencial, tirá-los da face dela com um afago antes de dar-lhe o beijo para finalizar o banho de chuva. Fechou os olhos e tudo lhe foi tão vívido que sentiu a textura dos lábios e o cheiro da pele dele.
Abriu os olhos e testemunhou a neblina dissipando o labirinto. Sozinha em si mesma, sentada de pernas cruzadas em sua própria consciência, tocou os lábios como se pudesse tatear a memória recém resgatada. A tempestade virou chuva e Ela então se ergueu. Tinha encontrado a chave de si mesma e do Universo. Não haveria porta que pudesse impedi-la a partir de então. Tudo que precisava saber era onde diabos ela o tinha escondido dentro de si mesma.
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| “Under the Sun” por Dave McKean |

A maneira como ela se entrega ao movimento, a valentia de quem se deixa experimentar, de quem vive francamente o que tem de ser vivido, me comoveram.
Fazia era tempo que eu não passava por aqui, valeu ter voltado. Lindo o seu texto!
Um abraço,
Elis Barbosa
Elis,
Seja bem-vinda ao Aprendiz! Obrigado pela visita, pelo comentário e pelos elogios.
Bom você estar de volta ficcionando….e bacana o mergulho d’Ela.
Muito bonito e muito bom também! Parabéns!
Eu me identifiquei bastante com este texto!
Abraços!
Laura,
Você é cadeira cativa. Obrigado pela presença.
Viviane,
Que orgulho saber que toquei um ente feminino que, pelo que senti no seu blog, é tão comprometido emocionalmente com sua literatura. Um verdadeiro elogio.
Obrigado pela visita e pelo comentário. Seja bem vinda ao Aprendiz!