Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

Pietro v1.1

outubro27

Deserto dos Crânios. Hoje completo meu primeiro cento nesse lugar — isso inevitavelmente me lembra que já faz mais de dois anos que matei meu irmão — e pela primeira vez desde então, paro para descansar e começar a registrar os resultados de minha busca. Em parte, esse deserto é igual a todos os outros que atravessei: areia, calor e morte sempre à espreita, mas aqui, assim como em toda parte por onde vaguei nesse mundo estranho, o céu é rubro como num crepúsculo infinito. Segundo os beduínos nativos, há poucos anos o dia estranhamente nunca mais amanheceu. Eles chamam esse fenômeno de Escuridão Carmim.

Minha jornada começou quando surgiram rumores dizendo que o governo daqui — um império sem nome, de bandeira negra e sem símbolos — passou a vasculhar o deserto em busca de algum tipo de conhecimento mágico obscuro. Tirânicos, organizados e cruéis, eles possuem muito poder e expandem sua influência assustadoramente. Os califas da tribo sagrada se reuniram e, desconfiados que isso fosse um indício d’Aquele que Dorme Sob as Areias, alistaram voluntários para investigar.

Cem dias longos e aprendi muito pouco sobre esse mundo. Aqui, a minha afinidade sobrenatural com as tramas arcanas me castiga ainda mais. Preciso me controlar para que a energia mágica desse lugar não invada demais a minha alma e acabe me matando. Minha terra natal não é tão farta em magia, mas mesmo nela eu já precisava me esforçar ao lidar com qualquer tipo de feitiço. Aqui, é como se toda a magia do mundo estivesse transbordando! Toda vez que preparo um encantamento, sinto como se a essência primordial dessa terra castigada tentasse me usar como uma espécie de condutor ou válvula de escape — como se a própria magia quisesse fugir daqui! A cada mágica que executo, sinto que corro o risco de perder minha alma num refluxo arcano imprevisto. É uma sensação muito estranha, como se eu estivesse me equilibrando numa corda bamba que insiste em tentar sair debaixo dos meus pés.

Além da magia, também é muito difícil lidar com o povo daqui. Estranhamente, o medo das pessoas parece muito maior nestas paragens. Eles não disfarçam sua aversão a forasteiros e o toque de recolher soa cedo em praticamente todos os povoados que visitei. Os viajantes e nômades que surgiam no horizonte também se afastaram como se eu fosse um tipo de aberração. A ironia é que na minha terra natal fui incansavelmente perseguido por me julgarem associado aos demônios e aqui eles simplesmente fogem desesperados logo que avistam minha silhueta ao longe. Acredito que a crueldade desse império sem nome seja a fonte de tanto pavor. Há cadafalsos, forcas e jaulas com cadáveres definhados espalhadas nas cercanias de todas as estradas e povoados. O povo teme até mesmo a própria sombra e parece que tem seus motivos para isso.

Felizmente já tive alguns avanços importantes. Descobri que existem algumas pessoas que dedicam suas vidas a combater esse império sem nome. Eles formam uma milícia secreta, organizada e silenciosa. Permanecem escondidos, se preparando e aguardando a melhor hora de atacar. Demorei a encontrá-los e fui acolhido desconfiadamente dentro de um esconderijo afastado. Lá, pude descobrir que, embora estejam espalhados praticamente por todas essas terras, eles não são assim tão numerosos quanto eu imaginava. Arredios e espantadiços, só partilharam informações depois de um longo interrogatório onde, com meu prévio consentimento, usaram magias dolorosas para ler a minha mente. Por fim, me julgaram digno de confiança e hoje posso dizer que faço parte de suas fileiras.

Os líderes da resistência me contaram que a maior dificuldade agora, ironicamente, é a ausência do sol. A sombra, além de arruinar a agricultura e a pecuária, confunde os predadores — criaturas noturnas, em sua maioria, que ficam desorientados e caçam o tempo todo. Os seres do caos, que antes espreitavam durante à noite e fugiam para o subterrâneo diante da luz do sol, agora vagam livres, destruindo vilarejos, acabando com as colheitas e atacando os rebanhos. A motivação do povo se enfraquece e muito já se fala sobre pragas, maldições e sinais do fim dos tempos. O medo é o assassino da mente.

Como eu já desconfiava, os rebeldes confirmaram que o fenômeno de escurecimento não é natural. Ele foi provocado intencionalmente — de forma ainda desconhecida — e vai muito além de apenas nublar os céus; faz com que a magia desse lugar flua de forma diferente, sendo mais invasiva e traiçoeira. Obviamente, acredito que essa seja a causa do meu tormento arcano, mas não é de se estranhar que até a magia desse lugar esteja tentando escapar.

Penso que deve haver uma relação entre essa escuridão e algum tipo de alteração na composição do tecido entre os mundos. Caso minhas suspeitas se confirmem, é certo que elas poderão ser consideradas pistas claras da presença d’Aquele que Dorme Sob as Areias nesse lugar. Caso ele esteja aqui, é possível que essa escuridão faça parte de algum tipo de ritual para localizá-lo, se comunicar com ele ou até mesmo despertá-lo. Entretanto, ainda é cedo demais para afirmar qualquer coisa.

Continuo minha busca por esclarecimentos. Os rebeldes me falaram sobre as ruínas de uma civilização muito antiga no coração do deserto profundo e os símbolos entalhados nos cacos de porcelana que eles me mostraram eram muito parecidos com os da minha tribo, ainda que inteligíveis. Existem boatos sobre um ermitão que fez dessas ruínas seu exílio e talvez ele seja capaz de auxiliar em minha busca. Provavelmente, alcançarei as tais ruínas dentro do próximo cento, onde me sentarei para registrar meu progresso mais uma vez.

Diário de Pietro Raisengard, Escorte da Tribo do Sol.
Traduzido de um dialeto antigo da língua morta dos povos do deserto.

Postado como Ficção Fantástica
6 Comentários sobre

Pietro v1.1

  1. Em 27 de outubro de 2008 ás 5:02 pm Bruno Cobbi disse:

    Esse texto, foi inspirado por um original do bardo Pedro Bebber que chegou ao meu e-mail há algumas semanas atrás.

    Como eu sou um aprendiz de escritor muito ético, obviamente pedi permissão ao autor para dar meu toque especial ao texto e publicá-lo aqui no blog, mas como eu também sou um aprendiz de escritor muito cruel, roubei pedaços da alma de vários personagens do próprio Pedro (e me arrisco a dizer que, com isso, furtei partes da própria alma desse pobre bardo, ainda que indiretamente) para criar essa versão mais longa e ampliada da narrativa.

    O original conta com pouco menos de 2.000 toques e essa minha versão turbinada já passa dos 5.700. Minhas desculpas — e meu muito obrigado — ao velho POC! Companheiro de aventuras de longa data! Faço dessas minhas linhas uma homenagem a esse bom amigo, leitor fiel e comentarista ácido.

    Luz, guerreiro!

  2. Em 28 de outubro de 2008 ás 8:21 am Pocb disse:

    É sempre uma honra ter suas adaptações em meus textos.

    Obrigado pela homenagem, meu bom amigo, leitor fiel e adaptador fantástico de textos! hehehe.

    beijocas!

  3. Em 29 de outubro de 2008 ás 8:35 am Sue disse:

    Ihh…falo nada.
    Perdi meu posto de backgrounds e até agora, não sei se o meu último está bom ou não.

    Falo nada…

  4. Em 29 de outubro de 2008 ás 3:19 pm Pocb disse:

    Perdeu nada… vc é ninja! Ops, o Bruno é Ninja, vc é Barda!

  5. Em 26 de novembro de 2008 ás 8:29 am Analice disse:

    Incríveis as mudancas do texto original. Parabéns a ambos escritores.

  6. Em 27 de novembro de 2008 ás 9:29 am Bruno Cobbi disse:

    Sue,
    Que discípula mais ciumenta! Ainda bem que eu já postei a Luriel pra acalmar a fera!

    Pedro,
    Sou mesmo! E, segundo a lenda não tem parede que me segure! :D

    Ná,
    Obrigado pelos elogios. Você chegou a ver os que eu fiz em conjunto com o Diego e com a Suelen?

Não será divulgado

Exemplo de Website

Comentário: