Aprendiz de Escritor

Uma letra de cada vez...

“Praga” Materna

setembro9

Eu sou conhecido por ter uma memória de peixinho dourado: vivo perdendo compromissos, fazendo anotações, chegando atrasado e marcando compromissos ao mesmo tempo. No entanto, eu me lembro nitidamente da “praga” que minha mãe me rogou quando eu tinha os meus 10 pra 12 anos…

Eu sempre quis ser desenhista. Desde sempre. Infelizmente, minha aparente falta de talento nunca me rendeu frutos muito bons com o lápis na mão e, por mais que eu tentasse (e, obviamente, não falasse nada pra ninguém), nunca ficava satisfeito com o resultado dos meus próprios desenhos.

Daí mama me deu de presente de aniversário uma máquina portátil Olivetti, afinal ainda não tínhamos grana pra ter um novíssimo 486, para que eu não precisasse mais entregar meus trabalhos escolares escritos à mão e em papel almaço pra professora do portentoso Colégio Salesiano Santa Terezinha — instituição onde estudei dos 7 aos 17 anos, graças a uma bolsa arduamente obtida e à muito suor de Dna. Márcia Cobbi.

Sem me dar conta, eu me encantei pelo presente. Passava horas inventando moda na branquitude do sacão cheio de sulfite e aprendendo a usar a fita de duas cores — preto e vermelho — tarefa essa que eu nunca consegui cumprir sem me sujar inteiro. O corretivo de folhinha então…

Bom, o fato é que num dia desses — em que eu rolava pelo carpete da sala espaçosa do nosso ex-sobrado, no bairro da Água Fria, zona norte de São Paulo — ela parou de ler o jornal e ficou admirando minha empolgação ao bater um meus projetos malucos nas teclas daquela daquela maletinha cheia de sonhos. Olhou tanto que acabou atraindo minha atenção absorta. Foi então que profetizou, olhando por cima da folha de jornal dobrada:

— Posso te falar uma coisa? Eu acho que esse papo de desenhista não está com nada…. Você vai mesmo é ser escritor.

Debochei reafirmando meu sonho em ser desenhista e ignorei essa lembrança desde então. Fui retomá-la muitos anos mais tarde, agora, há pouco atrás. Contei pra ela, mas ela diz que não se recorda.

Felizmente, dizem que praga de mãe é tiro e queda. :D

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3 Comentários sobre

“Praga” Materna

  1. Em 12 de setembro de 2008 ás 6:24 pm Nanete disse:

    Bruno, adorei sua historinha, daquelas tiradas do fundo do baú de lembranças. Mãe é fogo, né? A minha dizia que eu era “manteiga derretida”, sensível demais, que se não corrigisse isso, não ía dar certo na vida. Que bom que continuo com esse defeito de nascença… :-)

    PS: Que saudade que me deu da velha Remington….

  2. Em 18 de setembro de 2008 ás 11:33 am Eduardo disse:

    Ainda bem que é praga de mãe e não de avó.

    Minha vó, coitada, nada conhecida de psicologia infantil e assim desejando que seu neto se rebelasse e tratasse de estudar ao invés de passar o tempo pegando caranguejo no mangue, ela vaticinava “você vai ser é carroceiro“. Bem, quase que ela acertava. Fui estudar contabilidade, mas estudar mesmo que era bom, nem pensar.

    Felizmente e, graças a Deus, o vaticínio não pegou, mas faltou muito pouco. Deus a tenha em Sua Glória.

  3. Em 14 de outubro de 2008 ás 10:56 am Bruno Cobbi disse:

    Oi Nana!

    O equilíbrio é a chave do universo. Sensibilidade e razão nos servem melhor quando sabemos equilibrá-las. Emoção demais nos amolece muito e razão demais nos endurece além da conta.

    Oi Seu Eduardo!

    Ainda bem mesmo! E quem diria hein! De catador de caranguejo no mangue a contador e de contador a escritor. O senhor tem uma saga épica aí nas suas mãos pra constar nas páginas dos seus contos & recontos!

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