É Proibido Ler!
A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.
Por indicação do Roger Brontops, um talentoso parceiro de roda literária — ainda sem blog, apesar de toda a nossa insistência — me mostrou esse ensaio da majestosa Guiomar de Grammont, escritora e professora no Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto.
Dando os devidos créditos: o texto saiu num livro que teve edição limitada chamado A Formação do Leitor: Pontos de Vista e que foi publicado pela Editora Argus, exclusivamente para o 12º Congresso de Leitura do Brasil, em 1999. Entretanto, não é difÃcil encontrar esse livro por aÃ, você sabe onde, você sabe como. ![]()
Na ironia sutil que só a psicologia reversa é capaz de evocar, deleitem-se aprendizes!
A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.
Afinal de contas, ler faz muito mal à s pessoas: acorda os homens para realidades impossÃveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delÃrios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraÃsos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos polÃticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossÃvel controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o Ãntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivÃduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
— Guiomar de Grammon
Sem comentários! ![]()

… sem comentários significa que não pode ter comentários?
.. brincadeira.
Muito bom o texto. É difÃcil imaginar o que seria o mundo sem a leitura. Sem poder ler um livro. Seria um mundo pobre… sem fantasia, sem imaginação.
Muito Bom!
Nunca mais vou ler! hehehe
Cruiz incredo, um mundo sem livros? rsrs
Amei, realmente o que seria de nós sem os livros?
Vou mostrar esse texto para uns amigos e mostrar que eles realmente estão certos.
Ler pra que?
Ler deveria ser proibido e pensamos tanto nisso que resolvemos criar um blog com esse nome!
Como estudante de letras, vejo quão importante a leitura se faz presente. A pessoa que lê e absorve informação sofre diariamente, porque a leitura abre os horizontes ao entendimento do cotidiano.
Como leitor inveterado achei esse texto excepcional. Todos deveriam lê-lo…ou não?