Receita: Ensopado de Saudades
Era uma vez um aprendiz de escritor triste e sem inspiração porque sua namorada ia viajar a trabalho, e ficar fora a semana toda.
Para ajudar o jovem parceiro a domar as saudades, a bela garota armazenou uma boa cota de companhia, carinho e meiguice durante todo o final de semana. Ela também deu ao namorado algumas dicas de culinária e, para os momentos de saudade-emergência, também o ensinou a operar a velha cafeteira azul.
Despediram-se, e o aparelho fez hora extra desde então.
Logo no primeiro dia, sobrara um aprendiz de escritor que, com o passar das horas, além de solitário ficara esfomeado. Então ele trocou a caneta-teclado pelo chapéu de balão, as letras nebulosas por temperos coloridos e o silêncio e o conforto do escritório-quarto pelo barulho das panelas e o frio dos azulejos na cozinha.
O resultado?
Ensopado de Saudades
Ingredientes
- As metades restantes do pacote de salsichas e do pote de molho que eles cozinharam juntos no domingo;
- Meia-xícara daquela cebola picadinha que ela odeia cortar, mas que sempre dá um jeitinho de convencê-lo a fazer em seu lugar;
- Uma colherada bem cheia das azeitonas recheadas com tomatinho que ela adora (cujo pote ele sempre deixa aberto para ela ir beliscando enquanto eles cozinham juntos);
- Uma xícara do molho de churrasco que ela sabe que ele gosta e nunca deixa faltar na geladeira;
- Uma colher de mostarda, molho inglês e todos os temperos picantes que ele adora e, aos pouquinhos, ela está aprendendo a gostar também;
- Uma pitada de alecrim e manjericão (os preferidos dela);
- Uma pitada de pimenta e parmesão (os preferidos dele);
- E um pouquinho dágua (de preferência da torneira mesmo, pegando daquele jeito dele que sempre acaba despertando uma bronca dela).
Misture tudo numa panela — de teflon como ela mandou, pois conhece o avoado que tem em casa — e deixe o molho engrossar. Mexa de vez em quando e quase chegue a ouvi-la ensinar como se deve manter tudo em movimento para os sabores se transformarem.
Tampe um pouco. Enquanto o molho apura, aproveite para lavar a louça tirando as risadas do café da manhã que sobraram dentro das xícaras coloridas e as migalhas de cuidado e dedicação dos pratos que ele preparou bancando o especialista em sanduíches. No terceiro suspiro, pode destampar e abaixar o fogo. Esquente o arroz branquinho que ela deixou pronto na geladeira e sirva tudo junto, numa porção cheirosa e colorida.
A sugestão do chef é ignorar os sentidos mundanos e saborear com atenção as emoções que esse prato desperta na alma. Concentre-se nos sorrisos e afagos, conduza sua refeição com energia e luz. O amargo da saudade ganhará um tom saboroso e encorpado que, além de ajudar na digestão, despertará sensações que, sem a companhia dela, ele não sentiria nem no restaurante mais caro da cidade.
Quando estiver satisfeito, faça uma jarra cheia de café perfumado do jeito que ela ensinou e sirva-se durante todo o resto da tarde, na caneca dela, se possível. A cada gole, lembre-se de um dos olhares luminosos, abraços apertados ou beijos roubados por trás do monitor. Não deixe esfriar, mas tome goles pequenos: os grandes podem aguçar muito o amargo da ausência dela. Se souber quando e como beber, terá um remédio contra saudades para toda a semana. E será feliz para sempre.
Receita simples né? Uma dica? Apurando o paladar, a beberagem também serve para curar a falta de inspiração! Aliás, com licença. A cafeteira está apitando.
que lindo.
é bom estar apaixonado.
dora