Voltando a ficcionar por aqui…
É galera , eu sei que faz um tempão que eu não posto nada do que eu tenho escrito por aqui. Por escrito, digo os textos mesmo, as minhas ficções como a Dorien e o Andrei, ou mesmo a Tate, aquela safada… Até comentei isso com vocês por aqui, mas a minha impressão é como se, de repente o foco do blog tivesse caído numa coisa jornalística e, por algum motivo bizarro, eu acabasse sentindo que as minhas ficções “não se encaixam” mais por aqui.
Ontem conversei com um amigo que também é blogueiro. Ele me convenceu só tem um jeito de mudar isso, aliás, tem vários, mas precisa começar. Sobre isso, eu já tinha tomado outras broncas antes (de gente bem grande no meio editorial, aliás), mas acho que ele conseguiu me mostrar como fazer a coisa andar mesmo de um jeito que me agrada.
Começando de leve, vamos postar uma ficçãozinha que eu escrevi num exercício pra pós. É um texto longo para o padrão do blog (tem mais de 8.300 toques), totalmente inadequado para ler na tela do computador, mas que é uma tentativa de conto pensada pra ser desse tamanho mesmo, mas impresso. Tomei algumas liberdades com as mesóclises e ênclises, mas a idéia é falar de um tema com sutileza, sem tocar diretamente nele. Vamos ver se vocês adivinham pelos comentários qual foi o tema sorteado pra mim?
O Domador de Furacões
Era um ciclone com nada além de desordem na cabeça, corpo, alma e coração. Como pipa solta em tempestade, girava entre pensamentos, atitudes, escolhas e fatos — de hoje e ontem — e nada se construía diante dele. Ou por suas mãos. Pelo contrário, algum deus furioso e sádico insistia em emprestar-lhe seus relâmpagos incessantes, outorgando-o a despejá-los sobre a vida morna que havia construído. Tudo exatamente como o cigano professara meses atrás, durante a quaresma.
Primeiro de tudo, esse deus tirou-lhe a casa. Sem o recanto, meio toca, meio castelo, ele não teria onde se esconder de si mesmo. Com isso, também lhe afastou os amigos. Manteve-os no mesmo mundo, mas todos distantes e ocupados para que ele sentisse o peso de incomodá-los, caso o fizesse. Colocou-os assim para que ele experimentasse a consciência sincera dos afogados ao suplicarem ajuda. E não demoraria a fazê-lo. Disso o deus sabia. Como alerta para ele mesmo, era preciso que fosse assim.
O próximo passo foi permitir (e até facilitar) que se frustrassem seus planos e lhe sumisse o sustento. Prevenido como era, demoraria um pouco até que se esgotassem todas as reservas dele. Já sem o lar, um inverno ao relento seria mais rigoroso e, para acelerar, seria bom que não lhe houvesse disciplina ou concentração para que tudo se consumisse mais rápido. Como não é permitido aos deuses negar nada aos mortais, restava dificultar-lhe o alcance a isso, mesmo que conhecesse e lhe sentisse a falta. Para isso, o deus guardou toda a dedicação e consciência que couberam em galões bem pesados e estocou-os bem no fundo da última prateleira na sua estante celestial. Depois, dinamitou a escadaria. O mortal precisaria escalar o furacão dentro de si mesmo para apanhar as tais ferramentas e, mesmo que o fizesse, precisaria galgar um caminho de volta com o peso completo, sem derrubar nenhum grão ou gota desse fardo. Teria que beber tudo quando chegasse de volta, em segurança, ao chão de sua alma. Tarefa árdua até mesmo para um deus.
Mesmo sem teto, tribo ou vocação, ele ainda amava e isso era louvável. Protegia sua jovem fada como um lobo, partilhando o pouco pão e os andrajos que lhe haviam sobrado. Em troca, ela se despia de toda vaidade diante dele e, verdadeira como era, o abrigava entre as pernas, quente e macia. Nua desse jeito, ela lhe tinha amor puro e esse era outro recurso ao qual decerto se apoiaria para ignorar sua senda. O deus sabia que a solidão o aguardava nesse caminho e notou que, para obrigá-lo a amar a si mesmo e escalar usando apenas isso, precisava abalar tal patamar no mortal. Como todo amor de fada-amante é inabalável (e ela era, em parte, inocente à senda de seu amado), o deus decidiu que atacaria o coração dele. E atacaria com o que havia de sobra ali: a dúvida.
Nenhum deus é autorizado a ferir o amor, então foi a vez do diabo atuar. Distante de deus como é, a besta é ausente de onisciência e age sob jurisdição premeditada. Ela veio espreitar em disfarce magro, leve e calmo. Farejou, rosnou, mas nem precisou atacar. Notando-a, o mortal preparou-se para o combate e alertou sua amada. Essa, por sua vez, chorou o perigo dele colocar-se tão perto de algo vil como um diabo e pediu que fugissem. Jovem e tolo como era, ele apanhou sua lança e se encheu de coragem contra o adversário, encarando-o de igual para igual. Tal justiça lhe trouxe uma vitória justa e gloriosa, mas encheu-lhe o ego de soberba — a ferramenta preferida de todo demônio.
Tudo o que um diabo precisa é de tempo e atenção. Imortal como o é, o diabo usou toda sua paciência para lamber as próprias feridas e reaproximar-se pelas trevas de uma trégua fingida. Ordenou que seus lacaios roubassem a lança da vítima e, mal sentindo o cheiro da vaidade na presa, desembainhou-a suavemente como lhe é nativo. Diante do mortal desarmado, usou de magia negra para que essa lâmina escura penetrasse como agulha no peito exposto da valentia. Depois, usou o orgulho da caça para despir-se do disfarce e avançar-lhe na jugular sem decência alguma. Despido da decência, todo demônio é pavorosamente irresistível. Todo demônio é imbatível quando é nu. O mortal conheceu a derrota humilhante diante do diabo. Nem sempre é dia da caça.
Feliz ou infelizmente, nenhum diabo tem permissão de matar. O mortal fugiu e se escondeu, sem ganir ou lamentar-se, mas já era tarde demais. Já ciente dessa sua limitação, a besta se diverte judiando e humilhando os adversários vencidos, então enviou seus asseclas para sussurrarem o nome do fugitivo pelo Éter. Quando o encontraram, derrubado numa sarjeta, duvidava do amor da fada e masturbava-se pelo diabo. Trouxeram-no, já nu e ferido, diante do trono da besta e ela mesma o masturbou. Embriagado, o mortal tomou-a para si, currou-a e foi possuído por ela. Essa confusão nublou-lhe o amor e só então o inimigo sorriu. Vitória. Olhou de soslaio para o deus e soube que cumprira sua tarefa. Então, acorrentou-o ali como troféu. Para sempre.
Entretanto, embora seja fardo ácido, o tempo é nato aos morais e soma um apreço único aos fracassos de suas almas. Saiba que é dessas cicatrizes eternas forjadas pelo tempo que os deuses se alimentam quando têm fome, mas não era esse o caso (embora, um dia, certamente viesse a ser). O objetivo era o de sublimar a tempestade de confusão; a tarefa do deus era ensinar seu servo a domar furacões e, nessa missão, “para sempre” era tempo demais. Para o deus desfazer a eternidade imposta pelo diabo, era necessário hastear arreios sobre a besta e resgatar seu filho do inferno. Então, o deus laçou um nó de remorso (que á a chave para a redenção) e colocou-o ao alcance do pescoço do mortal. A saber, essa é chave que abre o portão do inferno por dentro: arrependimento.
Diante da escolha, o servo arrependeu-se. Esse enforcamento o tirou dos grilhões do diabo sem matá-lo, mas levou-o para o alto de outro cadafalso, diante de um poço escuro, de fundo invisível (ainda que longe da morte certa, embora ele não soubesse) e sem outra saída que não fosse confiar em seu deus. Para os mortais sempre sobra o livre-arbítrio e, mesmo oniscientes, é assim que os deuses agem para reconhecer a sinceridade plena. Eles ignoram sua onisciência e entregam as criações aos seus próprios caprichos, confiando que elas saibam o que fazer com esse desconhecido. Dificilmente elas sabem. Muitas se sentam eternamente à beirada do grande poço invisível e raso, desconfiando. Entretanto, dessa vez deu certo. O mortal soube o que fazer sem sequer titubear muito.
Primeiro, ele conclamou todos os seus — amigos, amores e família. Depois, colocou-se diante dos olhos atentos de todos retribuindo a nudez de vaidade que sua fada amante lhe ensinara. Depois mergulhou. Na queda, ilhou-se consigo mesmo e voou. Lá de cima, pode vislumbrar tudo o que lhe sobrara e, assim, soube exatamente o que fazer. Para que escalar quando se podia voar? Foi ao topo de si mesmo e, furiosamente, jogou o último relâmpago para baixo, sobre a própria cabeça. Fez isso com toda coragem que só os apaixonados por si mesmos possuem em suas almas e o deus soube que não se tratara de suicídio ou covardia de nenhuma natureza. Pelo contrário, aquilo era sacrifício sincero. E nenhum deus resiste a sacrifícios, saiba disso.
Esse foi o mergulho para findar o sofrimento. O mortal escancarou sua janela à geada noturna por conhecer o calor da manhã. Ele resgatou-se dentro de si mesmo só para, logo em seguida, entregar-se ao próprio julgamento. Humildade e sinceridade são virtudes louváveis que dão vazão à temperança e plenitude. Essas, por sua vez, ensinam a efemeridade eterna da memória e da vida. Sabem como grafá-la em tábuas de gratidão com sangue e luz, para durarem bem mais do que a neblina do fracasso. Sangue e luz.
Hoje, ele jaz assim; sangrando de braços abertos, sob a luz num mar escuro, sem vergonha nem vaidade. De tudo, resta-lhe a fé em si mesmo e a chama do amor eterno da fada que, ao contrário do que muitos poetas dizem por aí, não morre nunca. Manteve a fé em si mesmo e, por contigüidade, na divindade mais importante de todas: a Sua. Hoje, é esse Deus que habita sua cabeça, corpo, alma e coração. Jaz ajoelhado numa promessa muda. Aguarda respeitosamente a passagem daquele furacão que lhe tirou tudo, mas que, com isso, deu-lhe a chance de recomeçar outra vez. E recomeçar no comando das rédeas, sem voltar ao final da fila. Um prêmio para poucos. Exclusivo dos que sobrevivem ao livro de Jó.

Oi Cobbi! Passei pra tomar um café e sapear no seu blog. Depois, com calma, numa madrugada, leio e comento seu texto.
KK
Oi, gostei do blog.
Muito bom o texto, meio complexo.
Karen,
Sapeie a vontade! Seja bem vinda ao Aprendiz! Comente sempre, nem que seja para deixar suas pegadas por aqui.
Luisa,
O Domador exige mesmo uma segunda leitura. Ele foi feito pra ser assim. Seja bem vinda ao Aprendiz!
Muito rico, verdadeira inspiração de escritor. Sem falar na densidade das idéias, na vida após a morte de muitos ideais…
Não tive muito tempo de ler tudo, mas belissimo, nem tanto, mas belo. Blog sobre leitura, escritores, escrituras… Enfim… Bom. Tem muita coisa besta rodando e este é de proveito, pedi à minha negrada — meus alunos — para visitarem.
Olá Bruno!
Faz muito tempo que não apareço por aqui, aliás, estive sumida dos amigos da blogosfera por alguns meses, porém, não perco a vontade de ler e, sempre que possível, comentar posts tão bacanas que encontro.
Acredita que conforme lia este aqui pensava exatamente na história de Jó? E, qual minha surpresa, a última linha faz menção. Entretanto, é denso e alegórico, não muito fácil de interpretar, daria muitas análises para alunos do curso de Letras…rs. Posso dizer bobagens em relação ao que abstraí numa primeira e única lida… “e quem não arrisca…” é covarde!
Domar furacão? Uma força da natureza tão intensa e poderosa! Quem se atreveria ou quem poderia fazê-lo? Penso que só aquele capaz de sofrer todo tipo de agrura e ignomínia, descendo gradativamente até o fundo da sua condição humana (tão frágil e tão complexa! Repleta do inesperado…), sim, pois, não há nada mais mutável e surpreendente que cada ser; tentamos estereotipar, simplificar, rotular… Desafiamos e somos desafiados, e nem sempre se acredita que a Natureza detém um poder capaz de destruir e reconstruir, esperando que a reconstrução seja total e transformadora no melhor dos sentidos.
Bjins e até mais!