Web Writing: O Apocalipse Digital

Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.

— Apocalipse 2:10

Velha discussão nova: páginas concretas e cheirosas vs. praticidade abstrata irrefreável (ou decomposição antiquada versus impessoalidade desconfiável, dependendo de qual lado se está na balança).

Em vias de começarmos o curso de Webscrita, lá na pós graduação, li mais uma do Websinder, dessa vez com as 39 pistas do meu xará carioca Bruno Rodrigues, um verdadeiro mestre na arte do Web Writing. (clique aqui e aqui — e prepare-se para navegar por longas horas — se quiser ser um faixa preta do Web Writing você também).

Seguem os pontos que mais me prenderam, e meus comentários à respeito de cada um:

As ferramentas estavam lá há tempos, em anos que hoje podem ser contados nos dedos de uma mão, apenas, ou em longas décadas. Fato é que, após tanto tempo colocado no centro das atenções do apocalipse cultural, sim, o livro sobreviveu.

Ahá! Eu sabia! 😀

Tecnologia? Inovação? Novos formatos? Qual nada. O que o admirável mundo novo da web trouxe ao livro – sabe-se hoje no emblemático ano de 2008 – não foi a técnica de recriar formatos, mas a magia de aproximar histórias de pessoas.

Sobre a falta de novos formatos, já não sei mais se feliz ou infelizmente. Sei que o Brunão está falando sobre a bomba n’água dos profetas do apocalipse digital, mas acho que vão me entender quando digo que sinto falta de uma nova linguagem — hipermídia pra lá, hipertexto pra cá, tirando os blogueiros e wikipedistas, quem (e quantos) é que, hoje, podem-se dizer que autores de obras hipertextuais? Sinto um coelho verde fosforecente escondido nesse buraco. E inevitavelmente eu vou acabar indo buscá-lo… Nem que seja só para dar uma boa olhada nele.

Se não era segredo a fórmula livro & cinema, por que a exceção? Por que demorou tanto tempo para que séries literárias virassem certeza de lucro descomunal? A resposta: faltava entender os adolescentes, que desde Spielberg & Lucas já demonstravam paixão por boas histórias. Faltava a eles um meio em que pudessem interagir, interferir, exigir, opinar. A web era uma questão de tempo, e o retorno da contação de histórias, em grande estilo e com nova roupagem, estava prestes a começar.

Sim! Chegou a nossa vez! Agora que os nerds chegaram ao poder, temos oportunidade (e orçamentos dignos) para criar obras-primas como o Batman de Nolam, os Vingadores de Penn , o Pó Estelar do Mestre Gaiman, as belas letras feias do Xamã Moore, os caçadores de anjos do Professor Ennis e todos os outros marioneteiros dessa verdadeira Vila Sésamo que é essa maravilha do quadrinho moderno promovido pela DC Comics.

Acho que a Matrix dos Wachowski foi quem chegou mais perto daquilo que a metáfora da internet é capaz de produzir na mente das pessoas — e lá vamos nós de novo ao Mito da Caverna de Platão

Afinal, um livro é uma história que é contada em papel ou uma história que se aproveita do papel para chegar até quem quer escutá-la? Por que uma história precisa ficar contida em um meio físico? Ao criador — escritor, apenas? — caberia a missão de inventar um grande arco por onde sua história poderá ser contada — que começa em um livro, vai ao cinema, recria-se em um game e permanece, também, na web.

Eis que voltamos à velha tradição de contar histórias o mais perto possível do público, como faziam os nossos antepassados: em volta de fogueiras, usando gestos, entonação verbal e jogos de palavras (em todos os sentidos da expressão, até o RPGístico). Eita roda da fortuna! O MacDonalds que me perdoe, mas eu amo muito tudo isso! Num gostou? Be mái güésti, modafóca! :)

Depois dessa epifania que me consome o espírito de prazer, deixo vocês com uma frase que, à partir de hoje, se tornou uma das minhas máximas:

É hora de rever o conceito de “livro”. Em um futuro próximo — futuro? —, ele não seria somente uma das pontas da fantástica tarefa de se contar uma história?

By Bruno Rodrigues! Toca aqui, xará! _o/

10 comentários sobre “Web Writing: O Apocalipse Digital

  1. Bruno, voce realmente é um homem do seu tempo, ocupando seus espaços e também mostrando pra gente que veio de um tempo (uns minutos antes) e por isso mesmo, mais lentos nesta busca de novos caminhos, quantas possibilidades.
    Viva a sua generosidade!

  2. Sempre antenadíssimo, Brunão! Embora não seja literatura a meu gosto, é invejável a intensidade como você se aplica no nisso, compartilhando o que aprende com os colegas.

  3. Sady,

    Impecável? Deus me livre! Esse quintal aqui é minha licença poética pra escrever porcarias! Na academia a gente treina, nos campeonatos a gente acerta! 😀

    Seja sempre bem vindo, xerife!

    Téca e Seu Eduardo,

    NAMASTÊ

    Vocês são meus irmão de armas nessa linha de frente. Meu escudo protege a vocês e dependo dos seus para proteger-me também.

    No fogo da minha espada e no aço do meu escudo. :-)

    Laurinha,

    Literatura não! Isso é mídia! Cabe qualquer literatura nesse formato. É um jeito de contar histórias e nele as histórias se enriquecem. Espero te ver mais vezes navegando por essas águas interativas.

    Com cuidado, principalmente nas ondas que você pega, milady. 😉

  4. “E Deus disse: “Faça-se a Luz”. E a Luz foi feita”. (Genêsis)

    “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus e o Verbo estava junto de Deus”. (Evangelho de São João).

    Apesar de todas as mídias, caro Bruno, o Verbo ainda é a palavra criadora e nada, nem mesmo as novas tecnologias substituirão o belo poder de saber contar estórias, uma vez que o cinema, o livro e o hipertexto dependem deste poder que só os cérebros de alguns poucos privilegiados possuem. Vide Spielberg, os contadores da Bíblia e Lewis Carrol entre outros.

    Ou seja, nem tudo que reluz é ouro. A questão é a melhor utilização dos meios digitais. Não creio ser a hora nem a vez dos nerds. Mas do homem comum que acha na web uma possibilidade de diálogo com o mundo e seu semelhante de maneira direta, simples e sem maiores interlocutores.

    “Felizes os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. (Mateus)

    A humildade e simplicidade das estórias é anterior a nós mesmos. Inconsciente coletivo. Acabam-se as mídias, ficam as boas estórias.

    Abraços!

  5. Apesar de todas as mídias, caro Bruno, o Verbo ainda é a palavra criadora e nada, nem mesmo as novas tecnologias substituirão o belo poder de saber contar estórias, uma vez que o cinema, o livro e o hipertexto dependem deste poder que só os cérebros de alguns poucos privilegiados possuem.

    Amém, doutora Maria Cristina!

    Espero que tenha entendido que pactuamos nesse tópico. Eu mesmo, entrei nessa de literatura para contar as minhas histórias! Leia com atenção:

    Eis que voltamos à velha tradição de contar histórias o mais perto possível do público, como faziam os nossos antepassados: em volta de fogueiras, usando gestos, entonação verbal e jogos de palavras (em todos os sentidos da expressão, até o RPGístico).

    E saiba que os bons contadores de histórias não são assim tão poucos. O problema é que muitos são anônimos às luzes da mídia e da academia, só é necessário procurar com cuidado. Caminhando por aí, conheci muitos roceiros, coveiros, donos de boteco, motoristas de ônibus e blogueiros que dariam ótimos contadores de histórias!

    Ou seja, nem tudo que reluz é ouro. A questão é a melhor utilização dos meios digitais.

    E não pára por aí não! É a melhor utilização do conjunto de mídias para se contar histórias. Os meios digitais, como vossa senhoria mesmo fez questão de ressaltar, não passam de só mais uma delas.

    Não creio ser a hora nem a vez dos nerds. Mas do homem comum que acha na web uma possibilidade de diálogo com o mundo e seu semelhante de maneira direta, simples e sem maiores interlocutores.

    Bonita frase, mas, quer saber, tomara que você esteja redondamente enganada! Gente que se rotula como “comum” perde toda a graça! Eu gosto mesmo é do tempero, do diferencial. “Falo a língua dos loucos” e não gosto de gente que quer parecer “comum”.

    A humildade e simplicidade das estórias é anterior a nós mesmos.

    Humildade é essencial. A indiferença e a falta de opinião, eu dispenso.

  6. Gostei bastante do site. Vou visitá-lo mais vezes. Tenho pesquisado muito sobre Comunicação Escrita Multimídia, Webwriting (como escrever na internet), Roteiros Multimídia (principalmente como escrever roteiros para filmes de cinema e textos para peças de teatro), Literatura na Web (principalmente livros, narrativa curta, como escrever contos e crônicas) e uma dica que eu dou é um blog que eu achei e disponibiliza um conteúdo legal sobre esses temas. É o Webwriters Brasil. Espero que gostem da dica!

  7. Alexandre,
    O Webwriters Brasil é parada obrigatória para qualquer blogueiro que se preze. É uma ciência curiosa que merece o cuidado mínimo pra qualquer um que deseje se comunicar com clareza e objetividade por qualquer suporte digital. Seja sempre bem vindo ao Aprendiz! 😀

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